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August 28, 2009

Um chamado para a angústia - David Wilkerson

O evangelho diluído de Rob Bell

Rob Bell Se você aí no Brasil ainda não conhece Rob Bell, vai acabar conhecendo. Bell é o pastor de uma mega-igreja em Grand Rapids, Michigan, EUA, chamada Mars Hill Bible Church (Mars Hill é a tradução em inglês da palavra Areópago – lugar onde Paulo pregou aos gregos – Atos 17). Fundada em 1999, quando Bell tinha 28 anos de idade, a comunidade pastoreada por ele e por sua esposa Kristen conta hoje com mais de 10.000 membros. Seu estilo de ensino, moderno e cativante, é a marca registrada de seu ministério e é certamente responsável por seu extraordinário crescimento numérico. Três de seus livros já foram traduzidos para o português: Repintando a Igreja, Deus quer Salvar os Cristãos e Sex God (ainda não lançado, mas já no prelo de impressão da Editora Vida). Bell já possui uma legião de admiradores no Brasil, entre eles o liberal Ricardo Gondim e seu amigo Ed René Kivitz.
No vídeo a seguir, intitulado “As Boas Novas de Acordo com Rob Bell”, Bell nos oferece sua versão daquilo que ele entende como as boas novas de Deus ao mundo:

Para alguns, Bell é o Billy Graham da juventude americana. De fato, Bell tem o potencial de se tornar no Youtube e outras formas de mídia eletrônica aquilo que Graham foi nos estádios – pelo menos em termos de alcance, inegável entre os jovens, muitos dos quais jamais colocariam os pés em uma igreja tradicional. Não assistí toda sua série de vídeos intitulada Nooma (representação fonética em inglês da palavra grega pneuma – que quer dizer sopro ou espírito), mas os vídeos que vi me impressionaram tanto na produção, impecável e profissional, quanto no conteúdo. Bell não é somente um mauricinho que gosta de aparecer. Ele realmente ensina. Sua habilidade como mestre é evidente (o que de forma alguma testifica a favor de sua mensagem).
Sem dúvida nenhuma, Bell é um gênio no quesito “contextualização”, e o admiro por isso. A geração atual não suporta mais o estilo ultrapassado e o dialeto religioso dos “irmãos”. Bell se despiu de toda religiosidade: ele se veste, fala e ensina no mesmo nível de sua geração. Seus ensinamentos são práticos e acessíveis, sem “teologiquês” nem “evangeliquês”. Bell se livrou do estilo tradicional de “louvor + sermão” em seus cultos. Em uma linguagem não religiosa, ele comunica princípios à sua audiência a partir de elementos do dia a dia e da cultura, semelhante ao que Jesus fazia quando contava parábolas à sua audiência.
Mas apesar de tudo isso, certas coisas me causam um desconforto terrível quando leio ou assisto Rob Bell. A forma e o estilo como ele projeta suas idéias são deveras fascinantes. Entretanto, o problema está em alguns sutis elementos que fazem parte de sua mensagem e que passam despercebidos na lupa de muitos de seus leitores, fascinados por seu elegante estilo literário e seu clamor em favor dos menos favorecidos.

Evangelho sem Cruz

Rob Bell é um dos chamados “emergentes liberais”. Para tais, o compromisso doutrinário é uma atitude beligerante e certos dogmas são desnecessários à fé cristã. O que importa para o emergente liberal é uma vida de serviço ao próximo, para assim “tornarmos o mundo um lugar melhor”. Mas assim como canja de galinha não é mais canja se não tiver frango, feijoada não é mais feijoada se não tiver feijão e suco de uva não é suco de uva se não tiver uva, um evangelho desprovido de certos elementos essenciais já não é mais o Evangelho pregado por Cristo e seus apóstolos.
cruz Bell menciona a ressurreição de Cristo no vídeo, mas seguindo a tendência liberal pós-moderna, não menciona a cruz de Cristo. A exemplo de seu mentor Brian McLaren (que afirma que a cruz é uma propaganda enganosa do evangelho), Bell se esquiva do escândalo da cruz. Ele simplesmente omite o tema e quando o menciona, não aborda a crucificação como o evento no qual Deus expiou os pecados da raça humana pelo sacrifício de seu Filho. Em Jesus Quer Salvar os Cristãos, por exemplo, Bell menciona a crucificação, mas dilui seu caráter expiatório e ressalta a atitude pacífica de Jesus, que não resistiu a seus agressores e caminhou a milha extra com eles. Jesus deixa de ser o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo e redime com seu sangue, para tornar-se somente um exemplo de pacifismo e auto-negação.
Até mesmo quando fala da ressurreição, Bell é ambíguo. No vídeo acima, ele menciona a ressurreição não como um evento místico, ou seja, a ressurreição corporal para a vida eterna (compreensível, porque, a ênfase do evangelho de Bell se limita a “fazer deste mundo um lugar melhor” e não aborda questões como o julgamento dos ímpios e a herança dos santos no mundo porvir; uma ressurreição literal perde totalmente seu valor). Bell prega uma ressurreição alegórica que se dá pela perpetuação da “ideologia cristã” através do pacifismo e pelo serviço ao próximo. Em outras palavras, Jesus está vivo entre nós quando levamos adiante sua missão de tornar este mundo um lugar melhor.

O “Plágio” Judaico-Cristão

Bell é adepto do desconstrucionismo pós-moderno, que questiona muitas das doutrinas e dogmas defendidos pelo cristianismo ortodoxo. O desconstrucionismo pós-moderno nem sempre é uma refutação aberta aos pilares doutrinários do cristianismo. É muitas vezes um tapinha com luva de pelica, algo muito sutil, que bate no fundamentalismo bíblico na forma de questionamentos. No movimento emergente liberal, influenciado pela filosofia pós-moderna, ao invés de fornecer respostas, a moda da vez é lançar dúvidas sobre postulados estabelecidos. Tudo é subjetivo, nada é absoluto, além daquilo que eles entendem como “amor ao próximo”.
Um exemplo disso é a insistência de Bell em comparar as raízes judaico-cristãs da Igreja com lendas e costumes pagãos do Império Romano e da Antiguidade. Ele o faz no vídeo acima de forma extensiva, o fez em seu livro “Repintando a Igreja” e o faz sempre que tem a oportunidade. Esta insistência soa quase como uma sugestão de que toda a narrativa judaico-cristã foi nada mais do que um plágio das superstições de Antiguidade.
Bell reconta o evangelho no vídeo acima como se fosse uma mera lenda deste “grupo de judeus que alegam terem visto seu rabino ressurreto” (para usar suas próprias palavras). Esta ambiguidade e o sutil jogo de palavras no discurso acima me incomodam (eu diria que talvez minha veia fundamentalista está falando alto demais, se não conhecesse a visão distorcida que Rob Bell tem das Escrituras). Bell fala de forma apaixonada quando descreve a missão da Igreja (que supostamente é transformar o mundo em um lugar melhor), mas a imparcialidade apática de sua retórica quando toca em certos pontos, como o nascimento virginal de Cristo, a crença em Jesus como o Filho de Deus, sua ressurreição e ascenção aos céus (repetidamente comparando tais crenças com mitos e práticas pagãs), mais se assemelha com a de um jornalista que se limita a transmitir uma estória sem necessariamente expressar sua opinião ao dizer se a mesma é real ou somente uma lenda. É como se pudéssemos ouvir a Serpente, ao longo da narrativa Bell, perguntando de forma bem sutil: “Será que essa estória é mesmo verdadeira ou não passa de uma lenda?”
Um outro exemplo está na página 26 de seu livro Velvet Elvis – Repainting the Christian Faith (no Brasil publicado com o título “Repintando a Igreja”), onde Rob Bell compara o nascimento virginal de Cristo com a lenda de Mitra (como no vídeo acima). Bell diz que a palavra “virgem” usada por Mateus pode ser traduzida como “jovem moça” e que se Jesus tivesse um pai biológico chamado Larry, a fé cristã em nada seria afetada, pois supostamente o que importa é a maneira que vivemos. Bell não nega abertamente o nascimento virginal, mas além de lançar dúvidas sobre o fato, anula totalmente sua relevância.
Será que este pequeno fato não tem nenhuma relevância? Pensemos: se Jesus tivesse um pai terrenal, as Escrituras estariam mentindo quando afirmam que José não teve relações com Maria até um tempo depois que Jesus nasceu. Se Mateus 1:25 não mente, então a mãe de nosso Senhor teria sido uma adúltera e fornicadora. Inevitavelmente, tal questionamento fere uma das duas premissas: ou a Bíblia não é infalível ou a mãe de nosso Senhor não era uma mulher descente. Ainda que seja verdade que no hebraico a palavra “virgem” é sinônimo de “jovem moça”, o contexto de Mateus nos deixa bem claro o que o evangelista quis realmente dizer.
Se Jesus era filho de José, de Larry ou qualquer outro homem, então toda a retórica de Paulo acerca do segundo Adão e uma nova raça não passaria de uma sandice (1 Cor 15:45 em diante).

As Influências de Rob Bell

Os Bell começaram a questionar seus próprios conceitos a respeito da Bíblia – “descobrindo a Bíblia como um produto humano”, nas palavras de Rob, ao invés de um produto divino. “A Bíblia ainda é o centro para nós”, diz Rob, “mas um tipo diferente de centro. Queremos abraçar o mistério ao invés de conquistá-lo.”
“Cresci pensando que entendia a Bíblia”, diz Kristen, “que sabia o que ela queria dizer. Agora, não tenho a menor idéia do que ela quer dizer.”
Fonte: Brian McLaren
Não quero promover a temporada de caça às bruxas, mas é importante que você, que lê as obras de Rob Bell, saiba que ele e sua esposa negam abertamente a inspiração e a inerrância das Escrituras. A emergência liberal é um processo de desaprendizado bíblico, no qual deixamos de entender a Bíblia como o veículo por meio do qual Deus expressa sua vontade absoluta de forma clara, para vê-la como um conjunto de rabiscos humanos do qual podemos até extrair algumas coisas, desde que não se trate de algo muito absoluto – seguindo a tendência pós-moderna niilista de abraçar o subjetivo, negar valores absolutos, de evitar ver as coisas “preto no branco”, de ter respostas prontas. Crendo-se muito sábios, os emergentes liberais se tornaram loucos, adeptos de um masoquismo intelectual que prefere dúvidas a certezas.
E como ninguém interpreta a Bíblia a partir do vácuo, mas inevitavelmente reflete em sua análise alguma influência, seja teológica ou cultural, devemos perguntar quais são as fontes de Rob Bell. A resposta não é tão difícil.
As ideias de Bell tendem à heresia conhecida como neo-ortodoxia bartiniana. Karl Barth ensinava o universalismo (algo que os emergentes liberais abraçam) e que as Escrituras apenas se tornam a Palavra de Deus por meio da obra do Espírito Santo em cada indivíduo, de forma subjetiva. Em outras palavras, a Bíblia não é divinamente inspirada, a não ser que Deus decida usá-la para falar com o indivíduo (assim como faz quando fala conosco por meio de um filme ou de uma notícia de jornal).
Em uma nota de rodapé, na página 184 de seu livro Velvet Elvis – Repainting the Christian Faith (Repintando a Igreja), Rob Bell cita como uma de suas referências o teólogo Marcus Borg e sua obra The Heart of Christianity (O Coração do Cristianismo). As citações a seguir foram retiradas da página 45 da obra de Borg citada por Bell:
Marcus BorgA Bíblia é o produto de duas comunidades históricas: Israel antigo e o movimento cristão primitivo. […]
Como tal, é um produto humano, não divino. […]
A Bíblia descreve a maneira como estas comunidades antigas responderam a Deus … a Bíblia nos relata a maneira como eles viam as coisas […] Não é o testemunho de Deus acerca de si mesmo (não é um produto divino), mas o testemunho destas pessoas diante de Deus.
Como produto humano, a Bíblia não é a “verdade absoluta” ou a “verdade revelada de Deus”, mas é relativa e condicionada à cultura … a Bíblia nos diz como nossos ancestrais espirituais viam as coisas – não como Deus as vê.
Pergunto àqueles que acompanham Rob Bell: a linguagem de Borg lhes soa familiar?
As impressões digitais de Borg estão por todos os lados nas obras de Rob Bell e de seu mentor Brian McLaren (autor de Ortodoxia Generosa e A Mensagem Secreta de Jesus), obras estas que Ricardo Gondim endossa e aparentemente têm como referência (o que não é nenhuma supresa). Suas idéias estão em gritante contraste com o que Paulo nos diz acerca das Escrituras;
Toda Escritura é divinamente inspirada e proveitosa para ensinar, para repreender, para corrigir, para instruir em justiça; para que o homem de Deus seja perfeito, e perfeitamente preparado para toda boa obra. (2 Tim 3:16-17)

Conclusão

Rob Bell O tipo de “evangelho” apresentado no vídeo acima é uma versão adulterada do Evangelho apostólico que prega Cristo crucificado para a redenção da raça humana. É uma adaptação que dilui o chamado apostólico ao arrependimento em uma mera filosofia pacifista centrada na prática de boas obras e demonstração de amor ao próximo.
Ainda que elementos como pacifismo, auto-negação e amor sacrificial na forma de boas obras sejam elementos importantes do verdadeiro Evangelho, esta não é a essência do Evangelho genuíno. A essência do verdadeiro Evangelho é que o homem, intrinsicamente depravado, foi redimido por Cristo, por meio de seu sacrifício expiatório na cruz do Calvário. Com “sacrifício expiatório”, entende-se que Jesus tomou nosso lugar na morte e na condenação pelas quais que eu e você deveríamos ter passado. Entendendo isso, e somente a partir daí, é que, mediante o arrependimento de nossas obras mortas, morreremos para nossa velha natureza e seremos transformados de glória em glória à imagem do Filho de Deus, para que possamos caminhar em novidade de vida neste mundo. E apesar de a glória do Filho de Deus em nós nos impulsionar a servir nosso próximo, tal demonstração de amor não se limita a “fazer do mundo um lugar melhor” (como Bell afirma no vídeo). O mesmo amor com o qual aliviamos o sofrimento dos menos favorecidos deste mundo, deve tornar-nos arautos de um mundo porvir que será herdado por aqueles que ressuscitarem para a Vida Eterna, e também do julgamento dos ímpios.
A visão que Bell tem das Escrituras Sagradas (como uma obra que representa a visão de seus escritores e não a verdade absoluta de Deus) somada à forma ambígua na qual ele narra a vida de Jesus – insistentemente comparando o nascimento virginal de Cristo, sua posição como Filho de Deus e sua ressurreição corporal a mitos e práticas pagãs – me faz questionar a cristologia de Rob Bell. Afinal, se as Escrituras não se constituem na Palavra escrita inspirada por Deus, então coisas como “nascimento virginal”, “Filho de Deus” , “ressurreição” e “ascenção aos céus” na cabeça de Bell podem realmente ser somente uma força de expressão, uma figura de linguagem influenciada pela superstição, pela mitologia e pela idolatria aos césares da época. Talvez, na cabeça de Bell, a maneira como a Bíblia descreve Jesus seja somente “uma pintura da forma que os primeiros discípulos enxergavam as coisas.”
Digo “talvez”, caro leitor, porque penso que ninguém pode saber com certeza o que pensa Bell e outros emergentes liberais a respeito de algumas coisas. A característica principal do espírito que está por traz do liberalismo emergente é deixar certas coisas “no ar”, para que sejam interpretadas individualmente. Afinal, de acordo com a filosofia pós-moderna que influencia a mente destes líderes, “nunca há somente uma resposta possível” e a verdade é algo relativo.
Tudo isso nos leva e pensar que se Jesus fosse um homem comum, nunca houvesse ressuscitado ou sequer existido – e tudo não passasse de uma lenda plagiada de Roma Antiga – para Bell e seus seguidores não haveria problema algum, pois o que importa realmente são os ensinamentos que este Cristo “lendário” nos deixou e sua prática de “amor ao próximo” (!!!). O liberalismo emergente transformou o Evangelho em uma mera filosofia e reduziu o Filho de Deus a um filósofo, na melhor das hipóteses, ou a uma mera lenda, na pior delas.
A mensagem sublimar por trás do liberalismo emergente é somente uma, e não é difícil de ser decifrada. Abaixo, a compilação dos sutis elementos que cada vez mais caracterizam o diálogo emergente, a saber: o liberalismo teológico, o universalismo e a prática de boas obras como substituição à mensagem da cruz:
A Bíblia não transmite verdades absolutas. Então, não importa quais fatos da narrativa bíblica são realidades e quais são meras projeções das opiniões ou superstições de seus autores. O importante mesmo são alguns valores que podemos dela extrair, a saber: O Evangelho é a boa nova de que Deus quer tornar este mundo em um lugar melhor. O Evangelho é nada mais do que um conjunto de bons valores morais, éticos e sociais que devem ser perpetuados e compartilhados pela prática do pacifismo, da auto-negação e do amor ao próximo. Quando fazemos estas coisas, Cristo está vivo entre nós – esta é a ressurreição. A única diferença entre budistas, hindus, muçulmanos, cristãos e até mesmo incrédulos de boa índole é que os cristãos personificam estas boas novas na lenda do Filho de Deus. Mas o que importa realmente é o amor, porque Deus é amor.”
Este é o mesmo “evangelho” de obras contra o qual os reformadores tanto lutaram, com a diferença de que, em sua nova versão, não agradamos a Deus pela compra de indulgências, mas pela prática de boas obras. Tal mensagem é a amostra de uma forma de piedade que nega o poder de Deus (2 Tim 3:5). É morte na panela, é apostasia.
Quem vos fascinou para não obedecerdes à verdade, a vós, perante os olhos de quem Jesus Cristo foi evidenciado, crucificado, entre vós? (Gal. 3:1)


Fonte deste post: http://paoevinho.wordpress.com/2009/07/30/o-evangelho-diludo-de-rob-bell/


August 19, 2009

Mídia Sem Máscara entrevista Ives Gandra Martins





Ives Gandra da Silva Martins, renomado jurista brasileiro com reconhecimento internacional, é professor emérito das universidades Mackenzie, Paulista e da ECEME – Escola de Comando do Estado Maior do Exército.

Presidente do Conselho da Academia Internacional de Direito e Economia, é membro das Academias de Letras Jurídicas, Brasileira e Paulista, Internacional de Cultura Portuguesa (Lisboa), Brasileira de Direito Tributário, Paulista de Letras, dentre outras.

Ao longo de sua notável trajetória, recebeu vários prêmios: Colar de Mérito Judiciário dos Tribunais de São Paulo e do Rio de Janeiro, Medalha Anchieta da Câmara Municipal de São Paulo, Medalha do Mérito Cultural Judiciário do Instituto Nacional da Magistratura e da Ordem do Mérito Militar do Exército Brasileiro, apenas para mencionar alguns. Já participou e organizou mais de 500 congressos e simpósios, nacionais e internacionais, sobre direito, economia e política.

O professor Ives Gandra é autor de mais de 40 livros individualmente, 150 em co-autoria e 800 estudos sobre assuntos diversos, como direito, filosofia, história, literatura e música, traduzidos em mais de dez línguas em 17 países.

August 12, 2009

Como Zaqueu?

Estava disposto a escrever algo sobre o cântico "Como Zaqueu", que tem sido muito cantado nas igrejas evangélicas ultimamente, e que tem erros teológicos em sua letra, quando me deparei com o artigo abaixo, escrito por um pastor da Assembléia de Deus. Vale a pena ler.

"Alguns internautas têm me instigado a analisar a composição “Faz um milagre em mim”. Eu vinha evitando fazer isso, a fim de não provocar a ira dos fãs do cantor que interpreta esse hit “evangélico”. Afinal, vivemos em uma época em que dar uma opinião à luz da Bíblia desperta a fúria daqueles que dizem ser servos de Deus, mas são, na verdade, fãs, fanáticos e cristãos nominais.

Resolvi, pois, atender os irmãos que desejam obter um esclarecimento quanto ao conteúdo da canção mais cantada pelo povo evangélico na atualidade, a qual começa assim: “Como Zaqueu, eu quero subir o mais alto que eu puder”.

Primeira pergunta para reflexão: Zaqueu, quando subiu na figueira, era um seguidor de Jesus, um verdadeiro adorador? Não. Ele era um chefe dos publicanos, desobediente a Deus e corrupto (Lc 19.1-10). Nesse caso, como um crente em Jesus Cristo, liberto do poder do pecado, pode ainda desejar ser como Zaqueu, antes de seu maravilhoso encontro com Jesus?

Segunda pergunta para reflexão: Por que Zaqueu subiu naquela árvore? Ele estava sedento por salvação? Queria, naquele momento, ter comunhão com Jesus? Não. A Palavra de Deus afirma: “E, tendo Jesus entrado em Jericó, ia passando. E eis que havia ali um varão chamado Zaqueu; e era este chefe dos publicanos, e era rico. E procurava ver quem era Jesus, e não podia, por causa da multidão, pois era de pequena estatura” (Lc 19.1-3). Ele não subiu na figueira porque estava desejoso de ter comunhão com Jesus, mas porque estava curioso para vê-lo.

Terceira pergunta para reflexão: O verdadeiro adorador deve agir como Zaqueu, ou como o salmista, que, ao demonstrar o seu desejo de estar na presença de Deus, afirmou: “Como o cervo brama pelas correntes das águas, assim suspira a minha alma por ti, ó Deus! A minha alma tem sede de Deus, do Deus vivo: quando entrarei e me apresentarei ante a face de Deus?” (Sl 42.1,2)? Será que o pecador e enganador Zaqueu tinha a mesma sede do salmista? Por que um verdadeiro adorador desejaria ser como Zaqueu?

Mas o hit “evangélico” continua: “Só pra te ver, olhar para ti e chamar sua atenção para mim”. Outra pergunta para reflexão: Será que precisamos subir o mais alto que pudermos para chamar a atenção do Senhor? Zaqueu, segundo a Bíblia, subiu na figueira por curiosidade. Mas Jesus, olhando para cima, lhe disse: “Zaqueu, desce depressa, porque hoje me convém pousar em tua casa” (Lc 19.5). Observe que não foi Zaqueu quem chamou a atenção de Jesus. Foi o Senhor quem olhou para cima e viu aquele pecador perdido e atentou para ele (cf. Mt 9.36).

A atitude de Zaqueu que nos serve de exemplo não foi o subir, e sim o descer, para atender o chamamento de Jesus: “E, apressando-se, desceu, e recebeu-o gostoso” (Lc 19.6). Por conseguinte, pergunto: O adorador, salvo, transformado, precisa subir para chamar a atenção de Jesus? Não. Na verdade, o Senhor está com o contrito e abatido de espírito (Is 57.15). Espiritualmente falando, Ele atenta para quem desce, e não para quem sobe (Sl 138.6; Lc 3.30).

Mais uma pergunta para reflexão: Se a atitude que realmente recebe destaque, na história de Zaqueu, foi a sua descida, por que a canção enfatiza a sua subida? O mais lógico não seria cantar “Como Zaqueu, eu quero descer”? Reflitamos. Afinal, como diz uma frase que circula na grande rede, o Senhor Jesus morreu para tirar os nossos pecados, e não a nossa inteligência.

A composição não é de todo condenável, pois o adorador que se preza deve mesmo cantar: “Eu preciso de ti, Senhor. Eu preciso de ti, ó Pai. Sou pequeno demais, me dá a tua paz”. Mas, a frase seguinte provoca outra pergunta para reflexão: “Largo tudo pra te seguir”. Estamos mesmo dispostos a largar tudo para seguirmos ao Senhor? E mais: É preciso mesmo largar tudo para segui-lo?

O que o Senhor Jesus nos ensina, em sua Palavra? Em Mateus 16.24, Ele disse: “Se alguém quiser vir após mim, renuncie-se a si mesmo, tome sobre si a sua cruz, e siga-me”. Renunciar não é, necessariamente, abandonar, largar, mas pôr em segundo plano. A própria família pode ser um obstáculo para um adorador. Deve ele, nesse caso, largá-la, abandoná-la? Claro que não! Renúncia equivale a priorizar uma coisa em detrimento de outra.

Não precisamos largar a família, o emprego, etc. para seguir o Senhor! Mas precisamos considerar essas coisas secundárias ante a relevância de priorizar a comunhão com Jesus (Mt 10.27). Nesta última passagem vemos que o adorador deve amar prioritariamente o Senhor Jesus, mas sem abandonar tudo para segui-lo! Não confundamos renúncia com abandono. O que devemos largar para seguir a Jesus é a vida de pecado, e não tudo.

A canção continua: “Entra na minha casa. Entra na minha vida”. O compositor se refere a Zaqueu, mas não foi este quem convidou o Senhor para entrar em sua casa. Na verdade, foi Jesus quem lhe disse: “Zaqueu, desce depressa, porque hoje me convém pousar em tua casa” (Lc 19.5). Nota-se, pois, que esta parte da canção não é essencialmente cristocêntrica, e sim antropocêntrica. Mais uma pergunta para reflexão: O hit em apreço prioriza a obra que Jesus faz na vida do pecador, ou dá mais atenção ao que o homem, o ser humano, faz para conseguir o que deseja? A canção enfatiza a Ajuda do Alto, ou a autoajuda?

Outra pergunta: Um verdadeiro adorador, um servo de Deus, alguém que louva a Jesus de verdade, que canta louvores ao seu nome, não é ainda uma habitação do Senhor? Por que pedir a Ele que entre em nossa casa e em nossa vida, se já somos moradas de Deus (Jo 14.23; 1 Co 6.19,20)?

A parte mais contestada da composição em apreço sinceramente não me incomoda muito: “Mexe com minha estrutura. Sara todas as feridas”. Que estrutura seria essa? No Salmo 103.14 está escrito: “... ele conhece a nossa estrutura; lembra-se de que somos pó”. Deus, é claro, conhece-nos profundamente. Ele conhece a totalidade do ser humano: espírito, alma e corpo (1 Ts 5.23; Hb 4.12). Creio que o compositor tomou como base o que aconteceu com Zaqueu. O seu encontro com o Senhor mudou a sua vida por completo, “mexeu com a sua estrutura” (Lc 19.7-10). Deus faz isso na vida do pecador, no momento da conversão, e continua a transformar os salvos, a cada dia (2 Co 3.18).

Quanto a sarar feridas, o Senhor Jesus de fato nos cura interiormente. Mas não pense que estou aqui defendendo a falsa cura interior, associada a regressão psicológica, maldição hereditária, etc. Não! O Senhor Jesus, mediante a Palavra de Deus e a ação do Espírito Santo, cura os quebrantados do coração, dando-lhes uma nova vida (Lc 4.18; 2 Co 5.17).

Diz ainda a canção: “Me ensina a ter santidade. Quero amar somente a ti. Porque o Senhor é o meu bem maior”. Sendo honesto e retendo o que é bom na composição (1 Ts 5.21), Deus, a cada dia, nos ensina a ser santos, em sua Palavra (Hb 12.14; 1 Pe 1.15-25). Além disso, Ele é, sem dúvidas, o que temos de mais precioso mesmo e, por isso, devemos amá-lo acima de todas as coisas (2 Co 4.7; Lc 10.27).

Quanto à última frase “Faz um milagre em mim”, o compositor comete o mesmo erro de português constante da campanha de publicidade da Embratel: “Faz um 21”. Na verdade, no caso da canção o correto seria: “Faze um milagre em mim”. E, no caso da Embratel: “Faça um 21”. (...)

Diante do exposto, que os pecadores, à semelhança de Zaqueu, desçam, humilhem-se, a fim de receberem a gloriosa salvação em Cristo (Lc 18.9-14). E quanto a nós, os salvos, os verdadeiros adoradores, em vez de subirmos o mais alto que pudermos, que também desçamos a cada dia, humilhando-nos debaixo da potente mão de Deus (1 Pe 5.6), a fim de que Ele nos ouça e nos abençoe (2 Cr 7.14,15)."

Ciro Sanches Zibordi
Pastor da Assembléia de Deus - Niterói
http://cirozibordi.blogspot.com

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