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May 20, 2014

Sobre a "bíblia Freestyle"


No dia 16/05/14 eu participei do Programa Vejam Só, da RIT-TV, tratando do tema "Igrejas underground e Bíblia Freestyle: Até que ponto estamos adaptando o Evangelho ao nosso gosto?". Ao meu lado estavam o Pr. Eber Cocareli, mediando o debate, e o criador da "bíblia Freestyle", o Pr. Ariovaldo Jr.

Tive uma boa impressão do Pr. Ariovaldo Jr. Percebi que estava diante de um homem crente e bem intencionado. Todavia, nossas posições foram opostas quanto ao assunto. Infelizmente, com um filho no hospital, eu não estava 100% no debate e, por isso, deixei de usar muita argumentação que poderia ter lançado para esclarecer melhor o tema.

Portanto, posto abaixo as razões pelas quais eu acho que a "bíblia Freestyle" é totalmente inapropriada para a leitura dos crentes e para qualquer tipo de evangelização.

1. Usa palavrões

Sempre foi ponto pacífico que crentes não falam palavrões. O povo de Deus sempre foi reconhecido por sua linguagem sadia e isso nunca precisou de defesa. Mas agora eis que surge uma geração dizendo que palavrão não tem importância, pois é algo "cultural e relativo". Vejamos o que a Bíblia nos diz: 

Mateus 5.22 “Eu, porém, vos digo que todo aquele que [sem motivo] se irar contra seu irmão estará sujeito a julgamento; e quem proferir um insulto a seu irmão estará sujeito a julgamento do tribunal; e quem lhe chamar: Tolo estará sujeito ao inferno de fogo.”

Mateus 12.36,37 “Digo-vos que de toda palavra frívola que proferirem os homens, dela darão conta no Dia do Juízo; porque, pelas tuas palavras, serás justificado e, pelas tuas palavras, serás condenado"

1 Coríntios 15.33 "Não vos enganeis: as más conversações corrompem os bons costumes".

Efésios 4.29 "Não saia da vossa boca nenhuma palavra torpe, e sim unicamente a que for boa para edificação, conforme a necessidade, e, assim, transmita graça aos que ouvem".

Efésios 5.3,4 “Mas a impudicícia [falta de pudor – no grego pornéia] e toda sorte de impurezas ou cobiça nem sequer se nomeiem entre vós, como convém a santos; nem conversação torpe [aischrotes – conversa imoral, baixa, obscena], nem palavras vãs [morologia – conversação boba] ou chocarrices [eutrapelia – linguagem baixa, libertinagem], coisas essas inconvenientes; antes, pelo contrário, ações de graças.”

Filipenses 4.8 "Finalmente, irmãos, tudo o que é verdadeiro, tudo o que é respeitável, tudo o que é justo, tudo o que é puro, tudo o que é amável, tudo o que é de boa fama, se alguma virtude há e se algum louvor existe, seja isso o que ocupe o vosso pensamento".

Colossenses 3.5-8 “Fazei, pois, morrer a vossa natureza terrena: prostituição, impureza, paixão lasciva, desejo maligno e a avareza, que é idolatria; por estas coisas é que vem a ira de Deus [sobre os filhos da desobediência]. Ora, nessas mesmas coisas andastes vós também, noutro tempo, quando vivíeis nelas. Agora, porém, despojai-vos, igualmente, de tudo isto: ira, indignação, maldade, maledicência, linguagem obscena [aischrologia – conversa imoral, baixa, obscena], do vosso falar".

Colossenses 4.6 "A vossa palavra seja sempre agradável, temperada com sal, para saberdes como deveis responder a cada um".

Tito 2.7,8 “Torna-te, pessoalmente, padrão de boas obras. No ensino, mostra integridade, reverência, linguagem sadia e irrepreensível [akatagnostos – que não cabe censura, nem reprovação], para que o adversário seja envergonhado, não tendo indignidade nenhuma que dizer a nosso respeito.”

Tiago 1.26,27 “Se alguém supõe ser religioso deixando de refrear a sua língua, antes enganando o próprio coração, a sua religião é vã. A religião pura e sem mácula, para com o nosso Deus e Pai, é esta: visitar os órfãos e as viúvas nas suas tribulações e a si mesmo guardar-se incontaminado do mundo.”

E onde estão os palavrões da "bíblia Freestyle"? Perdoem-me os irmãos que, como eu, não falam palavras torpes, mas é necessário, neste caso, mostrar o absurdo:

  • "E Jesus terminou a explicação: "Pois o Reino de Deus é desse naipe! Vai ter gente safada, ladrões, cobradores de impostos, putas e traficantes que vão entrar no céu na frente de vocês." Mateus 21
  • Porra! Pra que zoar a desprezar a Igreja de Deus e envergonha os que nem comida tem? Vamo parar com essa palhaçada! 1 Coríntios 11
  • "Ahhh maluco! Teu jeito de falar dá a entender que você é um deles sim!". E pra escapar de ser pego, Pedro começou a xingar e a jurar: "Puta que o pariu, viu! Quantas vezes vou ter que falar que eu juro que não conheço esse homem?". Mateus 26 
  • Tá foda a coisa por aqui, e chorando muitão eu escrevi pra que vocês conhecessem o amor que sinto por cada um aí. 2 Coríntios 2
  • E Jesus respondeu: “Vocês tão forçando a amizade pra ver se eu concordo com a putaria né? Pois o erro de vocês é não conhecer nem a Bíblia e nem o poder de Deus. Marcos 12
  • Vivam honestamente! Não vivam comendo ou bebendo além do que convém. Não fiquem procurando negócios desonestos, nem se metam com putarias, nem invejem ou briguem. Romanos 13
  • Tão falando por aqui que entre vocês andou rolando uma putaria dum tamanho que nem entre os pagãos se ouviu falar. 1 Coríntios 5
  • Os nossos corpos são membros de Cristo! Então pelamordeDeus, não façam do corpo de Cristo membros de uma puta. Não! Nããããão! Não sabem vocês que quem transa com uma puta, torna-se um corpo só com ela? 1 Coríntios 6
  • E como é justo entre os santos, que as putarias de todo tipo e o apego ao dinheiro nem exista entre vocês. Efésios 5
  • Uns ficam contando vantagem que preencheram a ficha de inscrição pra organizada comigo, outros com Apolo, uns com Pedro e outros com Cristo. Porra, gente! Por acaso faz diferença? 1 Coríntios 1
  • Mas mesmo eu sendo o mais foda nesse dom, ainda sim prefiro falar cinco palavras da minha própria inteligência pra que outros possam aprender algo, do que dez mil em idiomas desconhecidos. 1 Coríntios 14
  • E junto foi aquele brother que teve em todas as Igrejas conhecido o quanto o cara é foda no evangelho. 2 Coríntios 8
  • Ao ver esta cena, o religioso começou a falar baixinho: "Se Jesus fosse mesmo tão foderoso quando dizem, saberia que essa vagabunda aí não vale nada". Lucas 7

2. Usa palavras chulas

Palavras chulas são palavras baixas, grosseiras, inapropriadas. Na história da tradução da Bíblia os linguistas sempre se preocuparam em escolher termos dignos da santidade da Palavra de Deus. Esse cuidado não aconteceu na "bíblia freestyle". Alguns exemplos:

  • Se o seu computador é impecilho pra te deixar ser perfeito, quebra essa merda e joga no lixo. Mateus 5
  • Jesus sacou que os caras tavam falando merda e comentou: "Quem precisa de médico é quem tá doente. Mateus 9
  • "Se algum dos seus amigos fizer alguma merda, puxe ele no canto e quebre o pau. Se ele cair na real e pedir desculpas, você salvou seu amigo. Mas se o mané teimar, leva mais uns dois ou três pra por pressão. Se nem assim o safado reconhecer a cagada, leva a gangue inteira pra lhe dar uma surra moral! E se ainda sim o desgraçado não assumir o que fez, então nem considerem ele como amigo." Mateus 18
  • Prepararam o jegue colocando uns panos pra Jesus sentar sem machucar a bunda. Mateus 21
  • "As coisas que eu ensino vão ser repetidas no mundo inteiro, pra que nenhum bunda mole possa dizer que nunca ouviu falar do caminho que salva o homem, aí em seguida o mundo vai acabar." Mateus 24
  • Judas, percebendo a merda que havia feito, procurou os religiosos pra devolver o dinheiro que havia recebido. E lamentava dizendo: "Putz gente! Ferrei com Jesus! Mateus 27
  • Quando passou o cagaço, os guardas correram e avisaram os religiosos tudo que havia acontecido. Ao perceberem a merda que aquilo tudo ia virar, subornaram os guardas com muito dinheiro pra eles ficarem na miúda e fingirem que não sabiam de nada. Se cagaram de medo de Pilatos ficar sabendo de tudo. Mateus 28
  • “Pra entrar ladrão no banco, primeiro tem que ver se a segurança tá rendida. Senão mano, o ladrão se ferra. E já vou avisando vocês que falam essas asneiras todas que quem falar merda sobre o Espírito Santo não vai ser perdoado. Posso perdoar todo tipo de coisa, mas isso aí já é apelação!” Marcos 3
  • Jesus então tirou grandão seus discípulos: "Até agora vocês tão nessa bundamolice de não crer?". E a negada toda meio que sujou a cueca só de pensar nas coisas que Jesus era capaz de fazer. Afinal, quem era ele? Marcos 4
  • Precisamos é de tudo novo daqui pra frente. Se tentarmos remendar as coisas velhas, vai virar merda." Lucas 5
  • Mas uma viúva que era bem pobre, colocou duas moedas de 1 centavo na caixa. Tá ligado que com 2 centavos você não compra merda nenhuma, né? Marcos 12
  • Mas Deus não errou com ninguém! Quem faz um vaso tem poder pra escolher se ele será pra colocar flores ou pra ficar no banheiro recebendo merda de todos que ali moram. Tá achando ruim saber que Deus com muita paciência permitiu que viesse à existência um monte de vaso sanitário cheio de merda, que servem exatamente pra que Ele mostrasse sua raiva e poder? Romanos 9
  • O profeta Elias falou com Deus sobre a merda que tava virando o povo escolhido e a resposta que recebeu é que o próprio Deus havia separado pra si sete mil homens que não haviam mijado no barranco. Romanos 11
  • Tem gente que vive de datas especiais, mas outros acham que todos os dias são a mesma merda. Romanos 14
  • Tô falando de nego abusando da mulher do próprio pai! Vocês tão se achando os bonzões e nem se afetam a ponto de desejar afastar de perto de vocês quem faz essas merdas. 1 Coríntios 5
  • O guarda que vigiava Jesus, junto com os religiosos, vendo tudo que aconteceu, se mijaram. Mateus 27
  • Zacarias se cagou todo e gaguejava como uma criança pega fazendo arte em flagrante. O anjo o acalmou, dizendo: "Calma aí Zaca, eu não vim pra te sacanear não! Lucas 1
  • Aí Paulo respondeu: "Ô otoridade! Fique sabendo que eu sou judeu da cidade de Tarso, que não é pouca bosta na Cilícia não!". Atos 21
  • Se a rejeição do povo de Deus é salvação pro mundo, com certeza a aceitação deles será vida até pros mortos! Se o ovo tá podre, a gemada inteira vai ficar uma bosta. Romanos 11

3. Faz piada com o texto bíblico

A Bíblia sempre foi chamada de "sagrada" porque nela caminhos de vida e de morte são definidos. Ela não é um livro comum, mas um livro santo, inspirado por Deus. Davi o louva porque Ele magnificou acima de tudo o Seu nome e a Sua Palavra (Sl 138.2). Mesmo traduções e até paráfrases levam isso em consideração. Não a versão "freestyle", pois faz piada com o texto bíblico. Veja apenas alguns exemplos:
  • No meio dessa tentativa ridícula de "ajudar", uma nuvem os rodeou rapidamente e deu pra ouvir uma voz mais sinistra que do Cid Moreira: "Esse meu Filho é o cara! Só traz alegria ao meu coração. Fiquem quietos e escutem o que ele diz.". E os três seguidores de Jesus quase se mijaram de medo. Mateus 17
  • Aí os discípulos perguntaram: “Aí Jesus! Quer que a gente ore pra Deus mandar uma Genki Dama do céu pra destruir essa merda dessa cidade?”. E Jesus, dando bronca geral, explicou: “Putz, vocês realmente não sabem de que lado estão. Manés, eu não vim pra matar as pessoas, eu vim pra salvar!”. Lucas 9
  • Enquanto elas pensavam se ligavam pra polícia ou se iam no setor de achados e perdidos, apareceram duas pessoas que brilhavam muito. Não, não eram os vampirinhos emo da série Crepúsculo. Eram dois anjos. Elas obviamente se mijaram de medo. E os anjos disseram: "Pra que tão procurando gente viva em túmulo? Tão ficando loucas é? Jesus tá vivo. Ele avisou lá na Galiléia o que ia rolar." Lucas 24
  • Esse tal de José era especial por que quando a dona Maria (sua noiva) apareceu dizendo que tava grávida do Espírito Santo, ele obviamente sentiu que isso cheirava a chifre. Mas sendo um cara legal pra caramba, resolveu terminar o noivado discretamente. Mas naquela noite um anjo apareceu no meio de um sonho e de maneira bem convincente o persuadiu a aceitar a missão de ser pai do filho de Deus, que se chamaria Jesus. Eita homem santo esse tal de José! O moleque que se chamaria Jesus, além de nascer de uma virgem (pra não desmentir a profecia), também viria pra salvar o povo das cagadas deles. José, cabra macho e obediente, não transou com a dona Maria até que nascesse o menino que o ultrassom celestial havia prometido. Mateus 1
  • Tendo nascido Jesus em Belém, enquanto Herodes era governador, vieram a Jerusalém uns mágicos do oriente. Seus nomes eram David Copperfield, David Blaine e Criss Angel. Tá, não sabemos o nome deles. Mas que foi legal a piada, foi! Mateus 2
  • Aí o Espírito Santo levou Jesus pra um rolê, no deserto. E lá ficou cheio de propostas indecorosas por parte do diabo. Jesus acabou 40 dias e noites sem comer nada, mesmo havendo muitos Habbibs por perto. Mateus 4
  • Insatisfeito com a resposta de Jesus, o diabo o levou pra cima do World Trade Center (na época as duas torres ainda existiam), propondo que ele fizesse base jump dali. Jesus retrucou suave como uma voadora no peito: Não tente fazer Deus de otário. Mateus 4
  • Por fim o diabo levou Jesus pra frente da TV e mostrou tudo que tem de bom nesse mundo (incluindo Bacon, a Megan Fox e cerveja), prometendo dar todas aquelas coisas em troca de Jesus adorar o capiroto. Como Jesus não era besta nem nada, respondeu que só a Deus devemos adorar, até por que ele é o criador do bacon, Megan Fox e cervejas. Só restou então ao diabo vazar com o rabinho entre as pernas. Imediatamente após o capiroto vazar, os anjos trouxeram uma caixa de esfirras do Habbibs e uma Coca Cola bem gelada. Mateus 4
  • Sorte de quem for xingado, cuspido, e denunciado como abusivo no Facebook por causa de defender as minhas coisas. Pulem de alegria, por que fizeram o mesmo com os meus trutas antes de vocês, homens que tinham o poder do Espírito Santo de soltar Hadouken. Mateus 5
  • Deus faz gente boa e gente ruim ganhar na Mega Sena. Ele é igualmente justo para com todos. Mateus 5
  • "Quem me aceita é como se estivesse aceitando o Pai. Também quem receber vocês como profetas, serão recompensados de maneira justa. Quem der ainda que um copo de Coca-Cola e uma bolacha de água e sal pra alguém que está encarregado da minha missão, pode ficar tranquilo que não vai faltar bolacha recheada no céu". Mateus 10
  • Terminando de contar todas estas histórias, Jesus foi lááááá pro final da Judéia, pra lá do rio Jordão (acho que Judas perdeu suas botas aí, surgindo a expressão "onde o Judas perdeu as botas"). Um monte de gente ia junto, tipo quando o Forest Gump resolveu correr. Jesus resolvia todos os problemas de saúde da galera, na maior facilidade. Mateus 19
  • E Jesus soltou o hadouken final: "Se você quer ser 'o cara', então vende tudo o que tem e dá pra quem não tem nada. Faz a diversão dos pobres, mano! Aí vem viver comigo, nessa nossa vida loka". Então o cara abaixou a cabeça e saiu de fininho, por que era rico pra caramba e sentiu pena de se livrar dos carros, videogames, da empresa e do apartamento no Guarujá. Mateus 19
  • E Jesus explicou: "Vocês que largaram tudo pra serem meus seguidores, vou garantir umas cadeiras estilosas no céu, pra julgarem as doze tribos de Israel. Quem deixou as coisas materiais ou a família por minha causa, vai receber cem vezes mais no céu (menos sogra, claro), além da vida eterna." Mateus 19
  • Saindo Jesus do prédio do templo, os seus seguidores começaram a pagar pau pro tamanho da construção. Era igual ao que a Universal tá construindo em Sampa, só que mais bonito. Aí Jesus disse: "Tão vendo isso tudo? Não vai sobrar nada!". Mateus 24
  • "Aí vocês verão o meu Bat-Sinal no céu. Todo mundo vai ver e se lamentar. Vão me ver chegando em cima das nuvens, soltando hadoukens (com todos os especiais possíveis) e lasers pelos olhos. Vai ser o maior espetáculo da Terra!" Mateus 24
  • Se você soubesse quando o ladrão ia entrar na sua casa, ficaria esperto e faria umas armadilhas (tipo Esqueceram de Mim). Mateus 24
  • E ele pirou o cabeção. E gritava: "JESUS, FILHO DE DAVI! DÁ MORAL PRA MIM!". Ele então mandou chamar o cego e perguntou o que queria. O cego respondeu: "Eu queria uma moto Dafra... PEGADINHA DO MALANDRO! Ô Jesus! Eu quero enxergar!". E Jesus disse: "Enxerga então manolo! A sua plena convicção a respeito de quem sou te salvou." Lucas 18
  • Por isso é sabido que obter o favor de Deus não depende do que queremos ou do que fazemos. Mas depende somente de Deus (onde está seu livre-arbítrio agora, heim? HÁÁÁÁÁÁÁÁÁ). Romanos 9
  • Mas vocês FIEL, são de Jesus Cristo. 1 Corinthians 1

4. Distorce o sentido do texto

Como já deve ter ficado claro, a versão "freestyle" não é a Palavra de Deus apenas com linguagem diferente. É uma versão feita em cima do texto bíblico, mas sem exatidão alguma quanto ao escrito inspirado por Deus. O próprio autor insiste em dizer que não é uma tradução. E não é mesmo porque o sentido dos textos, em sua maioria, não é o original. Veja apenas três exemplos disso:

MATEUS 1.1-17
Na Tradução Almeida Revista e Atualizada:
Livro da genealogia de Jesus Cristo, filho de Davi, filho de Abraão. Abraão gerou a Isaque; Isaque, a Jacó; Jacó, a Judá e a seus irmãos; Judá gerou de Tamar a Perez e a Zera; Perez gerou a Esrom; Esrom, a Arão; Arão gerou a Aminadabe; Aminadabe, a Naassom; Naassom, a Salmom; Salmom gerou de Raabe a Boaz; este, de Rute, gerou a Obede; e Obede, a Jessé; Jessé gerou ao rei Davi; e o rei Davi, a Salomão, da que fora mulher de Urias; Salomão gerou a Roboão; Roboão, a Abias; Abias, a Asa; Asa gerou a Josafá; Josafá, a Jorão; Jorão, a Uzias; Uzias gerou a Jotão; Jotão, a Acaz; Acaz, a Ezequias; Ezequias gerou a Manassés; Manassés, a Amom; Amom, a Josias; Josias gerou a Jeconias e a seus irmãos, no tempo do exílio na Babilônia. Depois do exílio na Babilônia, Jeconias gerou a Salatiel; e Salatiel, a Zorobabel; Zorobabel gerou a Abiúde; Abiúde, a Eliaquim; Eliaquim, a Azor; Azor gerou a Sadoque; Sadoque, a Aquim; Aquim, a Eliúde; Eliúde gerou a Eleazar; Eleazar, a Matã; Matã, a Jacó. E Jacó gerou a José, marido de Maria, da qual nasceu Jesus, que se chama o Cristo. De sorte que todas as gerações, desde Abraão até Davi, são catorze; desde Davi até ao exílio na Babilônia, catorze; e desde o exílio na Babilônia até Cristo, catorze.

Na "bíblia Freestyle"
Livro da geração de Jesus, o cara. Da descendência de Davi e também de Abraão. Depois de Abraão, muito sexo foi feito e muitas crianças nasceram por conta disso. Essas crianças cresceram, tornaram-se adultos e também fizeram mais sexo ainda. Até que quarenta e uma gerações se passaram e nasceu um cara muito jóia chamado José.

Onde está a distorção? No texto original o Espírito Santo escolheu cuidadosamente os personagens marcantes da genealogia de Cristo para nos ensinar algumas lições como, por exemplo, que o Messias descende de Abraão e Davi (v. 1-6), descende de uma linhagem de reis (v. 6-12) e de pessoas que não mereciam estar em uma genealogia messiânica, mas Deus as inseriu para mostrar sua graça e misericórdia. Estas pessoas são Tamar, Raabe, Rute, Bate-Seba e Judá.

A versão "freestyle" subtrai todo este ensino. Deus não colocou textos sem propósito nas Escrituras. Retirá-los é adulterar a Palavra de Deus.

MATEUS 5.13-16
Na Tradução Almeida Revista e Atualizada:
Vós sois o sal da terra; ora, se o sal vier a ser insípido, como lhe restaurar o sabor? Para nada mais presta senão para, lançado fora, ser pisado pelos homens. Vós sois a luz do mundo. Não se pode esconder a cidade edificada sobre um monte; nem se acende uma candeia para colocá-la debaixo do alqueire, mas no velador, e alumia a todos os que se encontram na casa. Assim brilhe também a vossa luz diante dos homens, para que vejam as vossas boas obras e glorifiquem a vosso Pai que está nos céus.

Na "bíblia Freestyle"
Vocês são a vodka da caipirinha, mas se a vodka for vagabunda, como que alguém vai beber essa porcaria? Não serve pra mais nada, senão pra acender a churrasqueira. Vocês trazem capacidade de enxergar a verdade nesse mundo. Não dá pra esconder um gordo atrás da cortina. Seja referência! A luz de dentro da geladeira é legal, mas não tem muita serventia quando a porta tá fechada. Brilhem do lado de fora, pra ninguém trupicar no pé da cama.

Na época de Jesus o sal tinha muita importância na preservação dos alimentos. Quando se matava um animal para alimentação, a forma de não deixar a carne apodrecer era salgando-a toda. Não foi sem sentido, então, que Jesus chamou os discípulos de sal da terra, pois em um mundo de apodrecimento, eles são o diferencial da preservação. A outra figura usada por Jesus, a da luz, aponta para o testemunho do cristão por meio das suas obras que devem ser vistas por todos, para que glorifiquem a Deus. A paródia "freestyle" perdeu totalmente o sentido desta mensagem ao usar outros símbolos.

JOÃO 2.1-11
Na Tradução Almeida Revista e Atualizada:
Três dias depois, houve um casamento em Caná da Galiléia, achando-se ali a mãe de Jesus. Jesus também foi convidado, com os seus discípulos, para o casamento. Tendo acabado o vinho, a mãe de Jesus lhe disse: Eles não têm mais vinho. Mas Jesus lhe disse: Mulher, que tenho eu contigo? Ainda não é chegada a minha hora. Então, ela falou aos serventes: Fazei tudo o que ele vos disser. Estavam ali seis talhas de pedra, que os judeus usavam para as purificações, e cada uma levava duas ou três metretas. Jesus lhes disse: Enchei de água as talhas. E eles as encheram totalmente. Então, lhes determinou: Tirai agora e levai ao mestre-sala. Eles o fizeram. Tendo o mestre-sala provado a água transformada em vinho (não sabendo donde viera, se bem que o sabiam os serventes que haviam tirado a água), chamou o noivo e lhe disse: Todos costumam pôr primeiro o bom vinho e, quando já beberam fartamente, servem o inferior; tu, porém, guardaste o bom vinho até agora. Com este, deu Jesus princípio a seus sinais em Caná da Galiléia; manifestou a sua glória, e os seus discípulos creram nele.

Na "bíblia Freestyle"
Depois que passaram dois dias, Jesus e a sua mãe foram chamados para uma festa de casamento. Que diferente do tal “os noivos receberão os cumprimentos na igreja” resolveram dar uma big de uma festa com direito a poder levar os penetras. Pois é, igual aquela festa de igreja, acabou o vinho. A mãe de Jesus reclamou que o vinho acabou e pediu para Ele dar um jeito. Sabe como é, um milagre aqui outro ali que tal fazer o vinho brotar da água? Nessa Jesus responde pra mãe dele que não era hora dele sair do mocó. Mas sabe como é mãe, ela sempre tá disposta a mostrar foto feia, contar seus defeitos e mandar você fazer o negócio de qualquer jeito. A boa senhora manda o garçom cumprir exatamente o que o filho dela iria manda fazer. Rapaz, os caras juntaram um monte de barril de 120 litros, 120 litros malandro! Encheram de água e záz-tráz, virou vinho do porto. Aí o noivo que só tava pagando a conta, foi chamado pelo MC e ganhou um parabéns pela qualidade do vinho. Afinal, em festa com cunhando se serve primeiro patinho, picanha só no final, né não zezão?!


A versão "freestyle" joga fora o mais importante do texto: a presença dos discípulos. Jesus nunca fez um milagre sem propósito. Ele sempre tinha algo a ensinar. Por isso, os milagres são chamados de "sinais", porque apontam para um ensino. No caso do primeiro milagre, transformação da água em vinho, o objetivo era gerar fé no coração dos discípulos. Por isso o versículo 11 conclui o evento: "Com este, deu Jesus princípio a seus sinais em Caná da Galileia; manifestou a sua glória, e os seus discípulos creram nele." Aquele foi um milagre para os discípulos, por isso a multidão nem tomou conhecimento do ocorrido. Ao omitir isso, a versão "freestyle" corta o principal da mensagem, distorcendo o objetivo do ensino.

Conclusão
Concluo este texto dizendo que a "bíblia freestyle" é um equívoco. A linguagem é pecaminosa e blasfema. Por mais que o autor tenha tido boas intenções, deveria parar este trabalho e excluir o site. Não é linguagem apropriada para as coisas de Deus. Paulo instruiu a Tito dizendo: "No ensino, mostra integridade, reverência, linguagem sadia e irrepreensível, para que o adversário seja envergonhado, não tendo indignidade nenhuma que dizer a nosso respeito.” (Tt 2.7,8) Não há reverência e linguagem irrepreensível na "freestyle".

Quanto ao argumento de que as pessoas estão gostando, ora, nestes dias confusos há pessoas para todos os gostos e crenças. Até figuras folclóricas como "Inri Cristo" têm seguidores. O critério não é aprovação popular, é aprovação divina. E, geralmente, o que é aprovado por Deus não é popular entre homens. Paulo mostra isso claramente: "Pois a nossa exortação não procede de engano, nem de impureza, nem se baseia em dolo; pelo contrário, visto que fomos aprovados por Deus, a ponto de nos confiar ele o evangelho, assim falamos, não para que agrademos a homens, e, sim, a Deus, que prova o nosso coração." (1Ts 2.3,4)

Quanto ao argumento de que não é uma bíblia para crentes, mas para os não-crentes marginalizados, ele não se sustenta. As igrejas evangélicas têm nos seus bancos ex-bandidos, ex-drogados, ex-homossexuais, ex-bêbados, ex-punks, analfabetos e semi-analfabetos e todos foram alcançados pela Graça divina, por meio da pregação e explicação da Bíblia. Deus nunca precisou de uma versão com palavrões para atingir a estas pessoas. Pensar que Deus precisa deste tipo de "ajuda" é limitar o seu poder, é não confiar no poderoso Evangelho descrito em Romanos 1.16.

Nós precisamos pregar o Evangelho sim, a toda a criatura, mas sem nos esquecermos que "as armas da nossa milícia não são carnais, e sim poderosas em Deus" (2Co 10.4). Confiemos nisso.

Leia também:
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Palavrão – "só pra garantir esse refrão"? - Solano Portela
Crente boca suja - Sandro Baggio
Reflexão óbvia sobre os palavrões - Norma Braga






As Igrejas Históricas evangelizam?


Vamos tratar disso em dois pontos:

1. A humildade deve nos levar a aceitar críticas prontamente. Como não somos perfeitos, qualquer crítica deve ser assimilada com atenção, pois pode ser verdadeira ou, ao menos, ter um fundo de verdade. Quando irmãos criticam as igrejas históricas quanto à evangelização, fazemos bem em ouvir o que estão dizendo porque, nem nós, nem eles fazemos uma evangelização perfeita. Logo, todos temos campo para melhorar.

2. Assimilar a crítica do ponto 1, não significa admitir que as igrejas históricas não evangelizam. Muito longe disso! Presbiterianos, Congregacionais, Luteranos, Metodistas e Batistas estão há mais de um século evangelizando o Brasil. Incluo também as igrejas pentecostais históricas, como a Assembleia de Deus. Além das milhares de igrejas e conversões, ainda resta o enorme impacto no campo da educação e da ação social.

Quanto à Igreja Presbiteriana do Brasil, com 154 anos aqui, apenas o órgão central da Igreja (Supremo Concílio) investe cerca de 20 milhões de reais em missões e evangelização (54% do seu orçamento anual). Isso sem falar das mais de 6 mil igrejas que, individualmente, têm seus projetos evangelísticos locais. Fora do Brasil, só a nossa igreja sustenta hoje 145 missionários em 16 países. Investimento pesado em evangelização tem sido feito no Rio Grande do Sul, por exemplo, visando plantar algumas dezenas de igrejas nos próximos anos. Eu mesmo já estive lá, algumas vezes, em viagens missionárias com seminaristas de todo o país, evangelizando nas ruas, praças, de casa em casa e em escolas. E isso é apenas uma gota no oceano. Temos igrejas em São Paulo avançando no objetivo de plantar trabalhos em todas as cidades do Estado; no Nordeste o "Projeto Rumo ao Sertão" com mais de 30 igrejas organizadas nos últimos anos; Seminários Teológicos enfatizando cada vez mais a necessidade da evangelização e um número crescente de vocações missionárias entre os jovens de nossas igrejas.

Temos campo para melhorar? Com certeza. Mas ninguém ouse dizer que as igrejas históricas são omissas, pois não é verdade. Aliás, a grande maioria das denominações mais novas do país, com menos de 50 anos, saíram das igrejas históricas. Os líderes destas igrejas se converteram nas históricas e depois saíram. Cabe a estes, pelo menos, respeito e gratidão. Que Deus abençoe a sua Igreja em nosso país. E continuemos a evangelizar, sem esmorecer, até que nosso Senhor volte!

Para que não restem dúvidas, veja a interessante reportagem produzida pelo Jornal Nacional em 2009:








March 27, 2014

Os liberais são assim...


Os liberais que rastejam na Igreja possuem algumas características:

1°) Identificam-se como reformados;

2°) Não escrevem aquilo que pensam – fazer isso seria produzir provas contra si mesmos;

3°) Querem poder, mas não trabalho – se você quer encontrá-los, não procure onde o trabalho está sendo distribuído, mas onde há cargos importantes sendo votados;

4°) São mentirosos. Quando confrontados, negam;

5°) São covardes. Quando denunciados não assumem o que pensam – retiram vídeos do ar, apagam artigos da internet, excluem contas nas redes sociais;

6°) São parasitas. Mesmo discordando da doutrina e das resoluções da Igreja, vivem dela, sugando recursos e gerando crias;

7°) São infiéis. Na ordenação prometem lealdade aos Símbolos de Fé e à Constituição da Igreja e, no primeiro impasse, quebram as promessas.

Sobre estes escreveu Judas (12-16). Contra estes devemos lutar, para o bem da Igreja de Cristo.

January 26, 2014

A produção de teologia brasileira é pobre?


O site de notícias cristãs Gospel Prime publicou uma entrevista com Fernando Cintra, pastor batista, com o título: A produção de teologia brasileira é pobre. Como ideias devem ser discutidas e isso é saudável quando a abordagem é respeitosa, gostaria de contrapor as afirmações do pastor em sua entrevista. O texto dele está em vermelho e o meu em preto.

“a produção de teologia brasileira é pobre em todos os sentidos. Ainda estamos lendo em nossos seminários teólogos da década de 60 escritos por teólogos que já estão ultrapassados em suas conclusões”.

Parece que houve edição truncada no texto original, pois está confuso. A produção de teologia é algo diferente do que os alunos leem nos seminários. A produção de teologia é feita, basicamente, por meio das publicações dos teólogos, seja em livros ou em trabalhos acadêmicos. Já a leitura dos seminários depende da linha teológica de cada instituição.

Vamos, então, considerar que a crítica está endereçada ao que se lê nos seminários. O pastor diz que "ainda estamos lendo em nossos seminários teólogos da década de 60 escritos por teólogos que já estão ultrapassados em suas conclusões”. Faltou detalhamento na crítica. Quando o pastor diz "nossos seminários" ele está se referindo à sua denominação batista ou a todos os seminários do Brasil? A afirmação provocativa "produção de teologia brasileira" parece favorecer à segunda possibilidade. Se é isso, seria necessário que o autor declinasse mais dados. Será que ele tem conhecimento de tudo o que se lê em todos os seminários do Brasil? A que teólogos da década de 60 ele se refere? E quais conclusões estão ultrapassadas? Tudo isso fica no ar, sem respostas.

Entre as muitas questões polêmicas dentro das igrejas tradicionais está a ordenação feminina. Este mês a Ordem dos Pastores Batistas aprovou essa questão que divide a denominação. Para Fernando, a questão é simples: “Quando Deus começa uma obra ninguém pode segurar, mas Ele trabalha em nossa história… Nosso sistema congregacional é uma bênção, mas tem suas limitações e uma delas é que cada um pensa de um jeito”.

Não está claro se o pastor entrevistado é a favor ou contra a ordenação feminina. Quanto à decisão da Ordem dos Pastores Batistas, particularmente creio que houve erro. A ordenação feminina só prevalece diante da argumentação cultural. Denominações que têm pressupostos bíblicos não ordenam mulheres ao pastorado. O grande perigo (e que algumas igrejas ainda não perceberam) é que a mesma abertura que o argumento cultural dá à ordenação feminina, a saber "os tempos mudaram... hoje a mulher conquistou o seu lugar, etc...", já está sendo usado por igrejas norte-americanas e europeias para a ordenação de homossexuais ao ministério.

Para ele, parte da culpa é das editoras evangélicas do país. “Há muita coisa em termos de teologia bíblica evangélica brasileira, mas não há um parque gráfico operante. As editoras preferem traduzir livros de outros países. O que não acontece com a teologia brasileira católica”, acredita.

Texto confuso novamente. Se "há muita coisa em termos de teologia bíblica evangélica brasileira" como "as editoras preferem traduzir livros de outros países"? Afinal, as editoras estão publicando livros de autores nacionais ou não? Eu respondo: as editoras brasileiras têm feito as duas coisas. Há bastante produção estrangeira sendo traduzida, como também há um número crescente de autores nacionais sendo publicado. Quanto à afirmação de que "não há um parque gráfico operante" é bom esclarecer que parque gráfico diz respeito ao maquinário de impressão apenas, o final do processo. Quem produz livros não é a gráfica, mas a editora. A gráfica apenas imprime todo o processo que foi feito na editora.

Além disso, lembra que a maioria dos seminários brasileiros só ensinam sobre “os teólogos da primeira década do século XX e nem sabem os nomes dos teólogos brasileiros evangélicos e latinos”. Ou seja, de certa forma estamos “parados no tempo” ao longo das últimas décadas.

Novamente, a que teólogos (agora, da primeira década do século XX) ele se refere? E a acusação de que os seminários não sabem os nomes dos teólogos brasileiros e latinos é bastante imprudente. Os seminários da Igreja a que sirvo (Igreja Presbiteriana do Brasil) contemplam em sua grade curricular sete semestres de Teologia Sistemática, abordando os temas teológicos no decorrer da história da Igreja, e mais dois semestres contemplando a Teologia Contemporânea, isto é, o desenvolvimento teológico dos últimos séculos até as últimas décadas. Além disso, a crítica que se faz à teologia de tempos passados não é justa. Nem sempre a vanguarda das ideias é sinônimo de sabedoria. No início do século 20, por exemplo, o melhor caminho para as igrejas bíblicas não foi o embarcar na síntese entre Cristianismo e Iluminismo, com seus pressupostos racionalistas, mas retornar aos conceitos bíblicos e ancorar a fé nos seus fundamentos. Mais tarde, este movimento fundamentalista descaracterizou-se, mas seu início, com a publicação do "The Fundamentals" (12 volumes escritos por 64 teólogos ingleses e americanos e 3 milhões de cópias publicadas) deu um norte para as denominações reformadas, livrando-as do canto da sereia do liberalismo teológico. Se aquelas igrejas tivessem embarcado na "vanguarda teológica" teriam afundado.

Para as igrejas mais tradicionais isso teve um resultado claro: a perda de terreno para o movimento neopentecostal e a “explosão” de denominações como a Universal, a IMPD e outras. “Os tradicionais erraram em não falarem a língua do povo e nem de tratar o povo como indivíduos e não massa. O Deus imanente ficou muito mais visível pelos pentecostais e nas novas igrejas do que pelos tradicionais que não foram bons na divulgação”, assevera o pastor.

Essa análise é puramente pragmática. Atribui vitória ao movimento neopentecostal e fracasso ao protestantismo histórico. O pastor cita a Igreja Universal e a Igreja Mundial do Poder de Deus como exemplos de sucesso. Não é preciso muito para demonstrar o equívoco. As igrejas citadas estão longe da Palavra. Mercantilizaram a fé. Trouxeram de volta os comerciantes do templo, outrora expulsos pelo próprio Jesus. Pregam outro evangelho, humanista, triunfalista, materialista. Servem ao deus Mamon, não ao Deus verdadeiro. O crescimento destas igrejas não deve ser atribuído, de forma alguma, ao êxito na comunicação, como defende o pastor, mas à lei comercial de oferta e demanda: Para um povo doente e sem acesso à saúde, oferece-se cura. Para um povo carente de dinheiro, oferece-se prosperidade. Para um povo cheio de problemas e necessidades, joga-se a culpa nos demônios e resolve-se tudo com exorcismo. Com este tipo de relação, em que as pessoas sempre acham o que procuram, estas igrejas sempre estarão com seus bancos cheios. Mas isso está  bem longe da aprovação de Deus. O texto de Mateus 7.22 e 23 se aplica.

Sendo assim, constata-se que existe um dilema com o crescimento estatístico no número de evangélicos do Brasil: o número de seminários não acompanhou, prejudicando assim a formação de novos líderes para essas novas igrejas.

De fato, o número de seminários não acompanhou o crescimento numérico dos evangélicos. Mas é questionável se um número maior de seminários geraria mais líderes para estas igrejas, visto que a maioria delas não valoriza a formação teológica. Algumas denominações neopentecostais ordenam seus pastores com cursos rápidos, de poucos meses. Em muitos casos, vale mais o carisma pessoal do que os dons e talentos para o pastorado.

Concluo dizendo que, em minha opinião, a produção de literatura teológica no Brasil nunca esteve melhor. A despeito da existência de algumas vertentes equivocadas, o interesse pela teologia séria e bíblica está crescendo. Há pouco mais de 20 anos, quando comecei a estudar teologia, havia pouco material em português. Muita coisa era lida em espanhol, por meio da FELIRE, que nos beneficiava com livros reformados, ou em inglês mesmo. Hoje, além da boa literatura disponível, temos grandes conferências de teologia espalhadas por todo o país. Desta forma, nossa produção teológica não pode ser chamada de pobre...

January 14, 2014

Um universitário confuso encontra um cristão ex-ateu


Por Kelson Mota.

Após uma aula sobre entropia e probabilidade, nos corredores de uma querida universidade gaúcha, um aluno me aborda:

- Professor, posso falar um pouco contigo?
- Diga! Qual o problema?
- Sua aula sobre entropia e probabilidade. Me deixou confuso.
- Em que sentido?
- Dá a entender que há um sentido por trás de todas as coisas.
- E não há?
- Eu acho que a vida não tem sentido algum. Um completo absurdo.
- Entendo... Por que estás fazendo uma faculdade de engenharia?
- Bem, preciso ter uma direção na vida?
- Por quê? Em sua visão, a vida não tem sentido, logo por que perder tempo em algo que é absurdo?
- Já pensei nisso. Mas sua aula dá a impressão que há um sentido. Há?
- Se não há sentido na vida, não há sentido em sua pergunta e nem em nossa conversa. A não ser que desconfies que sua visão esteja errada. Estou certo?
- Talvez... Como posso saber? Tudo é tão além de qualquer significado real...
- Existe algo fundamental que sustenta toda a realidade e empresta significado real a todas as coisas e dá-lhes um sentido e propósito. Negar este fato é ficar na beira do abismo do ser, olhando o vazio.
- E o que é isso?
- Não desconfias?
- O senhor está falando de Deus?
- Precisamente dEle.
- Não sei se acredito nisso.
- Se não há Deus o que resta ao homem?
- Ora, todas as coisas... eu acho...
- Cite uma.
- Bem, a vida. Que tal?
- Se não há Deus, a vida é, na melhor das hipóteses, apenas um acidente entre dois esquecimentos. Nascemos por mero acaso biológico e morremos no decurso temporal. O que veio antes e o que será depois não tem importância ou sentido, pois a vida ter-se-á sumido. Nada veio antes e nada ficará depois. Logo a vida é uma ilusão e os desejos do homem um absurdo. Cite outra.
- Bem, o homem pode sonhar com sua evolução pessoal.
- Como, se ele morre e depois nada resta? Qualquer legado que deixar ou sonhar cedo ou tarde se apagará.  O sonho é, portanto mais ilusório que a vida, caso não consideremos a existência de um Criador. O que achas?
- Eu não sei... Começo a achar que deve ter algum sentido nessa vida, mas não sei se Deus é a resposta.
- Entendo... Veja, se não há um Deus Criador, pessoal e amoroso, então o universo sempre existiu de uma forma ou de outra por si mesmo, autônomo. Sem Deus, sobra apenas a matéria incriada, sem sentido, sem moral, sem justiça. Interações caóticas de partículas que, em um momento de fenomenal absurdo, geraram seres que imaginam pensar viver, mas são apenas reflexos de matéria inanimada. Um simulacro de movimento, um espasmo de forças materiais. Está acompanhando?
- Sim...
- Pois bem, a organização desses seres é apenas acidental, pois se só há o universo, o conceito de bem, mal, moral, justiça, altruísmo, bondade são apenas ilusões. Os sonhos humanos são feitos de material ainda mais frágil, pois que são transitórios. Não resta nada ao homem além do absurdo da vida em um universo não vital, impessoal e indiferente. Não importa o que ele intentar fazer, sonhar ou construir, ao fim e ao cabo será sem sentido, sem pertinência, sem transcendência. O que nos traz de volta a você.
- O que tenho a ver com isso?
- Se Deus não existe não há base para sua desconfiança que haja algum sentido nessa vida. Vá viver e morrer sua existência miserável em qualquer lugar ou situação que escolher. Não fará diferença. Agora, se Deus existe, há um sentido para essa vida e para todas as nossas escolhas e decisões. E a forma de viver e morrer faz toda a diferença. Entendes?
- Então há um sentido?
- A questão que sobra não é se a vida tem sentido, mas se há ou não um Deus sobre todos nós. A primeira decorre da segunda. A idéia de um sentido existencial só faz sentido em relação a uma realidade superior.
- Mas, e se não houver um criador?
- Então meu caro, se nossa esperança se resume apenas a esta vida, a humanidade tem uma existência mais infeliz e miserável que o menor dos vermes de nosso planeta, que nada cogita dessas coisas e vive apenas a procura da próximo oportunidade de forrar o estômago. Não gera consolo ou sentido a vida sem a existência de um Criador.

***

            Semana seguinte, em meu gabinete na UFRGS, alguém bate a porta e a entreabre.
- Professor, o senhor tem um tempinho para mim? – o mesmo aluno do corredor.
- Pode entrar. Alguma dúvida da aula?
- Não, não é isso. Estou gostando de uma garota...
- Aãhh? E o que tenho a ver com isso? – Pergunto cuidadosamente, como que pisando em ovos.
- É que ela é como eu, não acredita em um sentido para a vida.
- Volto a perguntar: o que isso tem a ver comigo?
- Bem, tenho medo que ela se mate... Ela está meio que numa fase suicida.
- Entendo... E por que te preocupas com isso? Deixe que se mate – e volto meu olhar para o papel em que rabiscava algo.
- Professor! Fala sério! – e sua expressão alarmada não provoca nenhuma alteração em minha face tranquila.
- Estou falando e te levando muito a sério. Considero seriamente quando dizes que não acreditas em um sentido para a vida. Se a vida não tem sentido, por que te preocupas com a vida dessa moça? A vida não tem sentido, é o que você crê. Logo, a vida dela também não tem sentido. Sua preocupação não faz sentido. Deixe que morra. Aliás, nessa sua cosmovisão, nem mesmo minha afirmação faz qualquer sentido.
- Mas a vida tem que ter algum sentido!! Qualquer um!!
            À sua expressão de desalento respondo com um olhar silencioso. Após uma pausa, para que ele tivesse consciência de sua afirmação, respondo:
- Muito bem, então estás desconfiado que a vida não é apenas um mero absurdo. Pergunto, o que sentes por ela tem sentido e significado para ti?
- Sim... – responde acabrunhado, olhando para o chão.
- É real? Ou apenas ilusório?
- É real.
- Pois bem, escute atentamente o que vou dizer: a vida tem sentido, nossas palavras têm significado, nossas escolhas são reais e buscamos e lutamos por realização verdadeira. Por quê? Porque somos reflexos dAquele que nos criou. NEle encontramos sentido, significado e realização. Sem Ele, o homem se encontra só, assustado, na escuridão de seu próprio coração. O que sentes por essa garota tem significado especial, porque o Senhor Deus colocou em teu coração a capacidade de amar, de se importar com outro alguém. Entendes?
- Acho que sim. Mas o que posso fazer para convencê-la a não se matar?
- Você? Nada! Um cego não pode guiar outro cego. Primeiro, deves estar seguro do sentido da vida para ti. Não podes convencê-la disso, se você mesmo não entende. Fazê-lo, seria hipocrisia ou mesmo loucura.
- Mas, alguma coisa tenho de fazer por ela, até que eu possa compreender. O senhor não tem alguma sugestão?
- Ela gosta de ler?
- Muito.
- Então posso sugerir um ou dois livros que talvez façam alguma diferença.
- Acho que não precisa. Eu já dei um de presente para ela, na semana passada.
- Mesmo? Que bom. Qual livro deste.
- “A peste”, de Camus – e abre um orgulhoso sorriso.
- Por que não deste logo um revolver para ela se matar? Você tá louco?!
- Como assim, professor? – e todo sorriso se transforma em uma expressão assustada.
- Como “como assim”? Se a garota está em um estado suicida, como pôde dar para ela ler um clássico niilista? É pedir para se matar. Só faltou a presenteares com Nietzsche e um pacote de cianureto.
- Mas o livro fala da falta de sentido da vida...
- Que é precisamente o motivo dela querer se matar. Você não entende o que lê?
- Nem pensei nisso... o livro é tão viajante...

***

Duas semanas depois, em meu gabinete, volto a receber a visita já familiar do meu aluno confuso favorito, que ao entrar na sala dispara a falar.
- Professor, ela adorou o livro que o senhor sugeriu e está começando a ler o segundo. Eu já li os dois e estou cheio de dúvidas. Qual é exatamente a natureza do grande abismo? O que era o lagarto no pescoço do homem? Como o cristianismo pode ser diferenciado de um mito? Como...
- Calma, está na hora do lanche. Vamos ao café do Antonio e lá poderemos conversar com tranquilidade.
E devagar, compartilhando um suco e um café, converso a respeito dos livros de C.S. Lewis, da vida do Filho de Deus e seu sacrifício, de minhas próprias inquietações e de minha vida anterior no ateísmo. Respondo suas perguntas e faço outras tantas. Ele ainda não está convencido da veracidade do cristianismo, mas já considera a existência de um Criador como algo digno de sua total atenção.
Despedimos-nos com um caloroso aperto de mão. Em meu coração suspiro uma breve oração a seu favor, por iluminação e entendimento.
Meses depois o reencontrei nos corredores do Instituto de Química, estava apressado. Perguntei-lhe sobre a moça, alvo de seus afetos.
- Ela saiu da fase depressiva e suicida. Agora está em outra. Encontrou um super grupo cristão, bem básico, e está lendo Thomás de Aquino.
- Sério? Que grupo é esse? – Pergunto desconfiado, pois nunca soube de um grupo básico que lesse Thomás de Aquino.
- É uma turma modernosa e acolhedora chamada Opus Dei.
- Você sabe o que é a Opus Dei?
- Sei não, acho que é um grupo que gosta de comunhão pelo tanto que a chamam para reuniões a portas fechadas. Só entra quem é convidado. Tô pensando em me convidar. O que o senhor acha?
- Ai, ai, ai...
E começa tudo novamente...

January 13, 2014

A Igreja Presbiteriana do Brasil rebatiza católicos?



Não. A IPB não rebatiza católicos. Na verdade, ela os batiza. Nós entendemos que o primeiro derramar de águas não foi batismo. Veja abaixo a resolução de IPB sobre este assunto:


"... sobre Consulta de “Rebatismo de Católicos Apostólicos Romanos”, a Comissão Executiva do Supremo Concílio da Igreja Presbiteriana do Brasil, CONSIDERANDO QUE:

1) À Luz da história da Igreja Presbiteriana do Brasil, lembramo-nos que no dia 12 de janeiro de 1862, na organização da Primeira Igreja Presbiteriana do Brasil, duas Profissões de Fé ocorreram, conforme registra Ashbel Green Simonton em seu Diário nas datas de 1852- 1867, 14/01/1862 de Henry E. Milfor e Camilo Cardoso de Jesus. O Sr. Milford já fora batizado na infância na Igreja Episcopal, não foi rebatizado. (Atas da Igreja do Rio de Janeiro, 1862, p.5 – A.G.Simonton, Diário, 1852-1867, 14/01/62; Boanerges Ribeiro, Protestantismo e Cultura Brasileira, São Paulo, Casa Editora Presbiteriana, 1981, p.25.  O Sr. Camilo Cardoso de Jesus por ser proveniente do Romanismo foi batizado (rebatizado).

2) Rev. Simonton consultou sobre o assunto o Rev. Kalley e a Junta Missionária em New York (Boanerges Ribeiro, Protestantismo e Cultura Brasileira, p.25-26; A.G.Simonton, Diário, 1852-1867, 14/01/62.

3) O batismo (rebatismo) estava em harmonia com a legislação da Igreja Presbiteriana da América, que em 1835, decidira o seguinte: (...) A Igreja Católica Romana apostatou essencialmente a religião de nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo e, por isso não é reconhecida como igreja cristã” (Assembly Digest, Livro VI, Seção 83,p. 560 (1835), Apud Carl Hahn, História do Culto Protestante no Brasil, São Paulo, ASTE, 1989, p.161).

4) Em 1845, mediante consulta ao Presbitério de Ohio, se o Batismo da Igreja de Roma era válido, decidiu: “A resposta a esta questão envolve princípios vitais para a paz, a pureza e a estabilidade da Igreja de Deus. Após ampla discussão, que se estendeu por diversos dias, a Assembléia decidiu, pela quase unanimidade de votos (173 a favor e 8 contra), que o batismo administrado pela Igreja de Roma não é válido. (Assembly Digest, Livro III Seção 13, p.103 (1845), Apud Carl J. Hahn, História do Culto Protestante no Brasil, p. 162).

5) A decisão do SC-90-150 reflete o mesmo entendimento de Simonton e também da Igreja Presbiteriana na América, nos seguintes termos: “SC-90-150 – Igreja Católica Romana – Quanto ao Doc. 32, do Presbitério de Florianópolis, sobre proposta versando “rebatismo” de pessoas provenientes da Igreja Católica Romana. O SC resolve 1) Considerando que a IPB não tem a prática de rebatismo, mas sim o de batizar àquele que aceita o Senhor Jesus como seu único Salvador. (evidentemente esta decisão não leva em consideração o batismo dos filhos de pais crentes, pois trata exclusivamente de responder ao Presbitério de Florianópolis sobre a proposta que ele faz). 2) Considerando que a Igreja Católica Romana tem a sua posição doutrinária tridentina e crê no batismo como “meio de salvação”, que é antibíblico: RESOLVE: 1) Estranhar a posição teológica do Presbitério proponente. 2) Recomendar a posição da IPB, de que a Igreja Católica Romana não é uma Igreja Evangélica. 3) Recomendar aos conselhos que ao receberem professados cumpram o que estabelece o Art. 12 do Princípio de Liturgia.”.

6) A posição de Calvino no Livro 4, Capítulo 15, parágrafo 16, afirma que a validade do batismo não depende daquele que administra, mas de Deus que instituiu o sacramento. Ele usa este argumento para combater o pensamento dos Donatistas e dos Catapatistas que eram anabatistas (ou rebatizadores). Contudo a principal tese de Calvino neste fato de que o sacramento não vem do ministro, mas de Deus.

7) Nós não “rebatizamos” católicos no sentido anabatista. Nós batizamos católicos.  Nós não rebatizamos crentes. Batizamos católicos porque cremos “que o batismo administrado pela Igreja Romana não é válido. Não é portanto, como fundamenta Calvino sua tese, uma questão simplesmente de quem administra o batismo, nem simplesmente as Palavras usadas no batismo, mas é uma questão da eclesiologia daquele que administra tal batismo. O ensino da Igreja Católica sobre o batismo contraria o ensino bíblico do batismo. Esta foi a falha na lógica de Calvino, segundo entendemos, suas palavras, neste caso, contradizem sua eclesiologia. Ele, efetivamente, não cria que a Igreja Católica Apostólica Romana era uma Igreja Cristã. Uma Igreja Cristã se destaca pela pregação e ensino de acordo com a Sola Scriptura, administra os dois sacramentos de acordo com o ensino das Escrituras, e disciplina seus membros de acordo com as Escrituras. A Igreja Católica Apostólica Romana não está sob a autoridade única das Escrituras, seus 7 sacramentos e administração do batismo e da ceia são contrários aos ensinos das Escrituras, e não disciplina seus membros de acordo com as Escrituras. O papa para os Reformadores e nossa Confissão de Fé, “é o anti-cristo”.

8) Foi nestas considerações que a Igreja Presbiteriana na América do Século XIX firmou-se corretamente, reconhecendo que a Igreja Católica Apostólica Romana apostatou essencialmente a religião de nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo e, por isso não é reconhecida como igreja cristã.

9) POR FIM, E NÃO MENOS IMPORTANTE, o Rev. José Manuel da Conceição, primeiro pastor brasileiro da Igreja Presbiteriana do Brasil, ex-padre romano, foi batizado ao fazer a sua Pública Profissão de Fé, conforme relata Boanerges Ribeiro em seu livro “O Padre Protestante” p. 116, que afirma: (...) ”Realizou-se o culto de costume, com uma nota sensacional:” (destaca o Rev. Boanerges) “Nessa ocasião foi batizado por Blackford o ex-padre Conceição, diante de algumas dezenas de pessoas que se comprimiam na sala. Para o padre foi uma cerimônia impressionante: “Era um belo dia (...) foi para mim um momento solene...” Após o batismo, Simonton, presente a tudo e testemunha dos fatos “pronunciou palavras e Conceição, com linguagem veemente e muito apropriada, explicou ao povo o passo que dera”. (O Padre Protestante, Boanerges Ribeiro, p. 116).

A CE/SC RESOLVE: Responde ao requerente: 1) Que a Igreja Presbiteriana do Brasil batiza conversos e menores sob sua guarda. 2) Que cremos, juntamente com os Reformadores e firmados nas conclusões históricas da igreja da outra América no Século XIX e em decisão solene de 1990, jamais contestada, que a Igreja Católica Apostólica Romana, não é uma Igreja Cristã. É uma igreja apóstata e sua eclesiologia contraria o ensino da Palavra de Deus. 3) Solenemente reafirmamos a decisão do Supremo Concílio da Igreja Presbiteriana do Brasil (SC-90-150). (CE-SC/IPB-2004 - DOC. XXXVIII)

Por uma questão de legalidade, a decisão acima foi anulada. A Comissão Executiva não tinha poderes para legislar sobre doutrina. No Supremo Concílio posterior à decisão, a questão legal foi resolvida e foram reafirmadas as conclusões da decisão:


SC-2006- Doc. 98 - Doc. XCVIII – Quanto ao Doc. 047 - CE/SC-2004 - DOC. XXXVIII - Quanto ao Doc. 003 - Proposta de anulação da decisão CE-SC/IPB-2004 - DOC. XXXVIII – Quanto ao Documento 047 procedente do Sínodo do Rio de Janeiro ao pedido de declaração de nulidade da decisão CE/SC/IPB 2004- doc. XXXVIII. O SUPREMO CONCÍLIO considerando: 1. que, à luz do art. 104 da CI/IPB, a CE/SC não dispunha de poderes para firmar ou reafirmar doutrina, uma vez que o teor da consulta não poderia representar assunto de urgência; 2. que compete ao Supremo Concílio formular padrões de doutrina e prática quanto à fé, nos termos do art. 97 da CI/IPB; RESOLVE: 1. declarar nula de pleno direito a decisão CE/SC/IPB 2004- doc. XXXVIII; 2. afirmar que a Igreja Presbiteriana não tem a prática de rebatismo, mas sim a de batizar aquele que recebe o Senhor Jesus como o seu único e suficiente Salvador, bem como os seus filhos e os menores sob sua guarda; 3. declarar que o batismo praticado pela Igreja Católica Apostólica Romana inclui elementos diversos a água o que a torna não aceitável à luz da doutrina reformada; 4. afirmar que a Igreja Católica Apostólica Romana não se alinha com os ensinamentos do Evangelho, conforme entendimento da Confissão de Fé que subscrevemos; 5. determinar que as Igrejas que, em caso de recebimento de membros oriundos da ICAR, sejam recebidos por profissão de fé e batismo e seus filhos e menores sob sua guarda por batismo.

Objeções:

1ª - Mas o batismo não é um só?
R.: O que aconteceu na igreja católica, não foi batismo, pois aquela não é igreja verdadeira e, por consequência, seus chamados sacramentos não tem valor algum.

2ª - O posicionamento da igreja pode ser esse hoje, no entanto historicamente é estranho, pois nenhum dos pais da Reforma foi rebatizado, nem Calvino, nem Knox, nem Lutero, nem Zwinglio, todos morreram sem o "batismo verdadeiro" então.
R.: Os reformadores viveram em um período de transição na História. Hoje, aceitar o batismo católico é aceitar a Igreja Católica Apostólica Romana como igreja verdadeira.

3ª - Mas se o Batismo foi administrado em nome do Pai do Filho e do Espírito Santo, não seria esse válido?
R.: Um batismo em nome da Trindade só é válido se feito por um ministro verdadeiramente ordenado. Imaginemos que um indivíduo amanhã funde a igreja apostólica da copa do mundo 2014, arrogue para si o título de pastor e comece a batizar em nome da Trindade. Aceitaríamos batizados egressos desta "igreja"? Certamente que não. O mesmo vale para a ICAR. Não é igreja cristã. Apostatou da fé. É templo de idolatria e não passa em nenhuma das clássicas 3 marcas da verdadeira igreja.

4ª - Toda igreja que em boa consciência professa os Credos Apostólico, Niceno e Atanasiano, deveria ser considerada cristã, não importa quão errada sobre tudo o mais ela seja. A ICAR é uma igreja cristã, pois professa estes credos. Como Calvino disse, "é uma ruína de igreja". Não obstante, igreja.
R.: A ICAR não possui as marcas da verdadeira igreja. A figura que me ocorre é a de duas folhas de credos no chão e alguns caminhões de dogmas, bulas, e ensinos de homens por cima das folhas. Quanto a Calvino, vejamos a opinião dele:

"Nesta medida, como é a situação sob o papismo, é possível entender que gênero de Igreja aí subsiste. Em vez do ministério da Palavra, aí reina um regime degenerado e conflacionado de falsidades, que em parte extingue a pura luz da verdade, em parte a sufoca; no lugar da Ceia do Senhor introduziu-se o mais hediondo sacrilégio; o culto de Deus foi deformado por variada e não tolerável aglomerado de superstições; a doutrina, à parte da qual não subsiste Cristianismo, foi inteira sepultada e rejeitada; as reuniões públicas, reduzidas a escolas de idolatria e impiedade. Portanto, ao nos apartar da funesta participação de tantas abominações, nenhum perigo há de que sejamos arrancados da Igreja de Cristo. A comunhão da Igreja não foi estabelecida com esta lei: que seja um vínculo mercê do qual sejamos enredilhados na idolatria, na impiedade, na ignorância de Deus e em outros gêneros de males; mas, antes, para que sejamos mantidos  no temor de Deus e na obediência da verdade."

"De igual modo hoje os romanistas nos importunam e terrificam aos ignorantes com o nome da Igreja, quando são adversários capitais de Cristo. Portanto, ainda que exibam templo, sacerdócio e demais exterioridades deste gênero, de modo algum deve mover-nos este enganoso fulgor, pelo qual os olhos dos simplórios são deslumbrados, a admitirmos estar a Igreja onde a Palavra de Deus não se faz presente. Pois esta é a marca perpétua com a qual nosso Senhor assinalou os seus: “Quem é da verdade”, diz ele, “ouve minha voz” [Jo 18.37]. Igualmante: “Eu sou o bom pastor e conheço minhas ovelhas, e de minhas sou conhecido” [Jo 10.14]; “minhas ovelhas ouvem minha voz, e eu as conheço, e elas me seguem” [Jo 10.27]. Pouco antes, porém, dissera: “As ovelhas seguem a seu pastor, porque conhecem sua voz, mas não seguem a um estranho, antes, fogem dele, porque não conhecem a voz dos estranhos” [Jo 10.4, 5]. Portanto, por que agimos  deliberadamente como insanos saindo em busca da Igreja, quando Cristo já a marcou de sinal longe de ser dúbio, o qual, onde é contemplado, não pode induzir a erro de que a Igreja certamente está aí onde na verdade está ausente, nada resta que possa dar o verdadeiro sentido da Igreja? Pois a Igreja se fundamenta não sobre juízos de homens, não sobre sacerdócios, mas sobre a doutrina dos apóstolos e dos profetas, nos lembra Paulo [Ef 2.20]. Senão que, antes, ela deve ser distinguida mediante esta linha divisória com a qual Cristo as distinguiu entre si – Jerusalém, de Babilônia; a Igreja de Cristo, da conjuração de Satanás: “Quem procede de Deus”, diz ele, “ouve as palavras de Deus. Por isso não as ouvis, porque não procedeis de Deus” [Jo 8.47].“Institutas, IV.2.2 e 4

"Ora, se se considera a Igreja ao ponto de termos que reverenciá-la, reconhecer sua autoridade, receber suas advertências, submeter-nos a seu juízo e nos conformar com ela em tudo e por tudo, não podemos conceder o título de Igreja aos papistas, segundo esta consideração, porque não nos é necessário tributar-lhes sujeição e obediência." Institutas, IV.2.10

"Pela mesma razão, se alguém reconhece por igrejas as presentes congregações contaminadas de idolatria, de superstição, de doutrina ímpia, em cuja plena comunhão o homem cristão deva permanecer, esse erra muito até em dar seu consentimento à doutrina." Institutas, IV.2.10

5ª - Os missionários brasileiros não rebatizaram católicos
R.: Posição de Simonton sobre o assunto: “A posição de Simonton face à Igreja Católica Romana, por outro lado, fora condicionada pela legislação da Assembleia Geral da Igreja Presbiteriana da América. Já em 1835 a Assembleia decidira que a Igreja Católica Romana não seria reconhecida como igreja cristã: ‘Deliberou e decidiu esta Assembleia que a Igreja Católica Romana apostatou essencialmente a religião de nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo e, por isso, não é reconhecida como igreja cristã.” HAHN, Carl Joseph. História no Culto Protestante no Brasil. São Paulo: ASTE, 1989. p. 161

Posição de Blackford sobre o assunto: “O romanismo não é cristianismo, é quase a negação de tudo o que é distintivo no cristianismo. É a grande apostasia, o Anti-Cristo, a obra-prima do grande inimigo de Deus e do homem para a destruição das almas e do bem-estar da sociedade humana. Não há verdade essencial da religião cristã que não seja distorcida, obscurecida, neutralizada, corrompida e completamente anulada pelas doutrinas e práticas do sistema romanista.” HAHN, Carl Joseph. História no Culto Protestante no Brasil. São Paulo: ASTE, 1989. p. 314






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