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December 30, 2015

Uma Análise Teológica da gravura “Mary and Eve” de Grace Remington


A gravura
A gravura “Mary and Eve” (Maria e Eva) foi feita por Grace Remington, freira da Abadia Mississipi em Iowa – EUA e é comercializada, como cartão de Natal, no site da Abadia.

O desenho apresenta como moldura a representação de uma árvore formando um portal. O portal, além de acompanhar a forma estabelecida pelas silhuetas de Eva e Maria, é muito utilizado em pinturas católicas relacionadas a santos. O fundo da cena é limpo, preenchido apenas pela cor dourada. A base do desenho é piso de terra. A árvore, repleta de frutos, o chão de terra e o fundo dourado parecem apontar para o primeiro paraíso, o Jardim do Éden.

Mais ao centro da gravura, Eva e Maria. Eva está olhando para o centro do desenho, a barriga de Maria, onde está o Redentor. Eva está nua, coberta apenas por seus cabelos que adquirem forma de vestido. Sua mão direita segura um fruto parecido com maçã, clara referência ao fruto proibido que ela comeu e passou ao seu marido, Adão. Suas pernas estão presas pela serpente, referência possível à escravidão do pecado, resultante da queda. À direita da cena, Maria, vestida de branco e com um véu azul. O branco aponta para sua pureza e o azul para sua realeza, visto que é considerada eternamente virgem e chamada Rainha do Céu, no catolicismo romano. Sua mão está sobre a barriga, onde está seu filho Jesus.

O movimento e as emoções da gravura se localizam nos olhares e nas mãos das personagens. Eva, cabisbaixa, com rosto corado de vergonha e olhar triste, segura na mão direita o fruto do pecado e, com a outra mão, segura a mão de Maria, sobre a barriga onde está o Redentor. Maria, com olhar de misericórdia em direção a Eva, com a mão direita acaricia seu rosto e com a esquerda acaricia a própria barriga. Na base do desenho, Maria pisa a cabeça da serpente. A serpente está com a língua para fora, indicando sua morte. Os sentimentos expressos na gravura são complementados pelo poema da freira Grace:

Minha mãe, minha filha, doadora da vida, Eva,
Não se envergonhe, não se aflija.
As coisas antigas já se passaram,
Nosso Deus trouxe a nós um Novo Dia.
Veja, eu estou com a Criança,
Por meio de quem tudo será reconciliado.
Oh Eva! Minha irmã, minha amiga,
Nós nos alegraremos juntas
Para sempre
Vida sem fim.

A teologia
Via de regra, toda forma de arte tem uma mensagem e, por vezes, a mensagem revela a cosmovisão e os pressupostos do autor. A gravura analisada foi feita por uma freira e, conscientemente ou não, acaba revelando 2 aspectos importantes da teologia católica romana:

1. Maria esmagando a cabeça da serpente
Logo após a entrada do pecado no mundo, como parte do castigo à serpente, Deus anunciou: “Porei inimizade entre ti e a mulher, entre a tua descendência e o seu descendente. Este te ferirá a cabeça, e tu lhe ferirás o calcanhar.” (Gn 3.15)

Está claro no texto que aquele que esmagará a cabeça da serpente será o descendente da mulher. Como a serpente não estava ali apenas como um animal, mas, principalmente, como instrumento de Satanás (Ap 12.9), os estudiosos da Bíblia entendem que este versículo é o primeiro anúncio da vitória de Jesus, o descendente, sobre o diabo. Por isso, Gênesis 3.15 é chamado de o “Protoevangelho”, primeiro Evangelho.

A Igreja Católica Apostólica Romana, em um esforço para incluir Maria no plano de salvação, interpreta este versículo atribuindo à mãe de Jesus a missão de esmagar a cabeça da serpente. Veja abaixo diversos trechos de documentos católicos sustentando esta interpretação:

“5. Citai algumas dessas promessas. 1º A que Deus mesmo fez nestas palavras do Gênesis (III, 15), dirigidas à serpente, que tentara e seduzira a mãe do gênero humano: ‘Porei inimizade entre ti e a mulher, entre sua raça e a tua, e Ela te esmagará a cabeça (...) 6. Qual é a mulher anunciada na primeira destas promessas? Todos os intérpretes da Escritura são unânimes em reconhecer nesta gloriosa mulher a Sma. e Imaculada Virgem Maria, escolhida de Deus para reparar a falta de Eva, reconciliar o céu com a terra e ser a libertadora do gênero humano.” Devoção à SS.ma Virgem Maria, Ensinada à Mocidade, parágrafo 5 e 6.

“Mas a humilde Maria será sempre vitoriosa na luta contra esse orgulhoso, e tão grande será a vitória final que Ela chegará ao ponto de esmagar-lhe a cabeça, sede de todo o orgulho. Ela descobrirá sempre sua malícia de serpente, desvendará suas tramas infernais, desfará seus conselhos diabólicos, e até o fim dos tempos garantirá seus fiéis servidores contra as garras de tão cruel inimigo". Tratado da Verdadeira Devoção à Santíssima Virgem, parágrafo 54.

“10 - Explique a primeira promessa de Nossa Senhora. A "mulher" anunciada é Maria Imaculada; a "descendência", ou posteridade da mulher, é Jesus Cristo, seu Unigênito Filho, e em Jesus Cristo todos os cristãos. A serpente é o demônio, e a raça da serpente são os que de tal modo cometem o pecado que se identificam com ele: ‘Quem comete o pecado é do demônio" (I Jo. III, 8). Maria esmaga a cabeça da serpente, isto é, vence o demônio: primeiro e principalmente por seu Filho Jesus, vencedor do demônio e do pecado; segundo, pela sua Imaculada Conceição. Deus estabeleceu, assim, ‘inimizades’ perpétuas e irreconciliáveis entre Maria e o demônio, entre a posteridade de Maria e a do demônio. Os hereges de todos os tempos compartilharam dessa inimizade, do lado do demônio, atacando o culto a Maria, destruindo suas imagens e santuários, perseguindo seus devotos.” Catecismo de Nossa Senhora, Lição I.

“37 - Esta verdade está, de fato, contida no Depósito da Revelação? 1) Na Sagrada Escritura: a) ‘Porei inimizades entre ti e a mulher; entre a tua descendência e a descendência dela (...) ela te esmagará a cabeça’ (Gen 3, 15). Conforme a doutrina constante da Igreja, a ‘mulher’ de que fala o Gênesis é Maria, Mãe de Jesus, sua ‘descendência’. Nessa passagem são prenunciadas a comum inimizade e comum vitória total do Redentor e de sua Mãe Santíssima sobre o demônio. Ora, essas ‘inimizades’ e essa vitória (‘Ela te esmagará a cabeça’) supõem, não somente em Jesus, mas também em Maria, uma total ausência de pecado, mesmo original.” Catecismo de Nossa Senhora, Lição IV.

“52. Uma única inimizade Deus promoveu e estabeleceu, inimizade irreconciliável, que não só há de durar, mas aumentar até ao fim: a inimizade entre Maria, sua digna Mãe, e o demônio; entre os filhos e servos da Santíssima Virgem e os filhos e sequazes de Lúcifer; de modo que Maria é a mais terrível inimiga que Deus armou contra o demônio. Ele lhe deu até, desde o paraíso, tanto ódio a esse amaldiçoado inimigo de Deus, tanta clarividência para descobrira malícia desta velha serpente, tanta força para vencer, esmagar e aniquilar esse ímpio orgulhoso, que o temor que Maria inspira ao demônio é maior que o que lhe inspiram todos os anjos e homens e, em certo sentido, o próprio Deus.” Tratado da Verdadeira Devoção à Santíssima Virgem Maria, São Luis Maria Grignion de Montfort, parágrafo 52.

“Mas a humilde Maria será sempre vitoriosa na luta contra esse orgulhoso, e tão grande será a vitória final que ela chegará ao ponto de esmagar-lhe a cabeça, sede de todo o orgulho.” Tratado da Verdadeira Devoção à Santíssima Virgem Maria, São Luís Maria Grignion de Montfort, parágrafo 54.

Fruto desta teologia equivocada, dezenas de imagens foram construídas no decorrer dos séculos com a figura de Maria esmagando a cabeça de uma serpente. Veja a seguir:


















2. Maria como a nova Eva
A Palavra de Deus ensina em Romanos 5.12-21 e 1 Coríntios 15.45 que Jesus Cristo é o segundo Adão. A Mariolatria romanista, sem qualquer evidência bíblica, passou a atribuir a Maria o título de “Nova Eva”. Veja abaixo alguns trechos de documentos católicos ensinando isso:

“Como diz Santo Irineu, ‘obedecendo, se fez causa de salvação tanto para si como para todo o gênero humano’. Do mesmo modo, não poucos antigos Padres dizem com ele: ‘O nó da desobediência de Eva foi desfeito pela obediência de Maria; o que a virgem Eva ligou pela incredulidade a virgem Maria desligou pela fé’. Comparando Maria com Eva, chamam Maria de ‘mãe dos viventes’ e com frequência afirmam: ‘Veio a morte por Eva e a vida por Maria”. Catecismo da Igreja Católica, parágrafo 494.

“QUINTA RAZÃO: Permitis a uma mulher cooperar na regeneração, como a primeira mulher, Eva, tinha cooperado na perdição da humanidade. Eva apresentará o fruto da morte, Maria apresentará o fruto de vida. Eva foi a causa das lágrimas. Maria será, tal um sorriso do céu, a causa da nossa alegria. Eva cooperou na nossa separação de Deus; Maria será o traço de união que nos liga a Ele. Maria é a segunda Eva, mas de ofício radicalmente oposto.” Maria e a Eucaristia, P. Júlio Maria, p. 128.

“Era conveniente à divina Sabedoria restituir ao mundo, por uma Virgem: Maria, o que outra Virgem: Eva, lhe havia tirado. Eva, a primeira Virgem e a mãe dos viventes, segundo a natureza, havia perdido para ela e para todos os descendentes o direito de comer da árvore da vida. Deus quis, depois da primeira Eva pecadora, a Eva inocente e pura: Maria, para restituir aos homens, na ordem da graça, o direito de comer da verdadeira árvore da vida, que é Jesus Cristo.”  Maria e a Eucaristia, P. Júlio Maria, p. 244.

“O novo Adão e a nova Eva, que são o Cristo e a Virgem dolorosa, vinham reparar o mal causado pelos primeiros.” Maria e a Eucaristia, P. Júlio Maria, p. 424.

“Pela obediência ela tornou-se causa de salvação, para si mesma e para todo o gênero humano. O laço da desobediência de Eva foi desfeito pela obediência de Maria. O que Eva atou com sua incredulidade, a Virgem Maria desatou pela fé.” S. Irineu, apud Antônio Mesquita Galvão, O Silêncio de Maria, p. 2.

“O que Eva condenou e perdeu pela desobediência, salvou-o Maria pela obediência. Eva, obedecendo à serpente, perdeu consigo todos os seus filhos e os entregou ao poder infernal; Maria, por sua perfeita fidelidade a Deus, salvou consigo todos os seus filhos e servos e os consagrou a Deus.” Tratado da Verdadeira Devoção à Santíssima Virgem Maria, São Luis Maria Grignion de Montfort, parágrafo 53.

“De resto, numerosos Padres e Doutores da Igreja vêem na mulher anunciada no “proto-evangelho” a mãe de Cristo, Maria, como “nova Eva”. Catecismo da Igreja Católica, parágrafo 411.

“Ao final deste missão do Espírito, Maria torna-se a ‘Mulher”, nova Eva, ‘mãe dos viventes’, Mãe do ‘Cristo total”. Catecismo da Igreja Católica, parágrafo 726.

“E é na hora da nova Aliança, ao pé da Cruz, que Maria é ouvida como a Mulher, a nova Eva, a verdadeira ‘mãe dos vivos” Catecismo da Igreja Católica, parágrafo 2618.

Sendo assim, uma gravura com Eva e Maria representadas não é algo novo na história. Veja abaixo 3 exemplos:




Conclusão
A gravura da freira Grace RemingtonMary and Eve” possui beleza artística e gera sentimentos de graça e misericórdia. Todavia, é impossível não considerar a teologia mariólatra por detrás do desenho, de exaltação a Maria como “Nova Eva”, aquela que reparou os erros da primeira, e de “Rainha dos céus”, aquela que esmagou a cabeça da serpente. Como escreveu Paul Romane Musculus, “A respeito da arte, bem como, a respeito de toda questão submissa à Igreja, a reflexão teológica é necessária. Para um reformado, a sua única referência, sobre qualquer assunto, será sempre a Palavra de Deus.” (La Prière des Mains: L'Eglise Reformee et L'Art, p.191).

December 7, 2015

Eu Amo o Dia do Senhor - Robert McCheyne


E acrescentou: O sábado foi estabelecido por causa do homem, e não o homem por causa do sábado” (Mc 2.27)


Queridos concidadãos e compatriotas, como servo de Deus neste escuro e tormentoso dia me sinto constrangido a levantar a minha voz em defesa da eterna santificação do dia do Senhor. Os atrevidos ataques que fazem alguns dos diretores da Estrada de Ferro Edimburgo-Glasgow contra a Lei de Deus e a paz de nosso descanso dominical, tal como se tem observado por muitos anos na Escócia; a blasfema modificação que pretendem propor aos acionistas no próximo mês de fevereiro, e os nefastos folhetos que estão atualmente circulando a milhares, cheios de toda sorte de mentiras e impiedades, convida fortemente a um sereno e deliberado testemunho de todos os fiéis ministros e mais sensíveis cristãos em defesa do dia do Senhor. Em nome de todo povo de Deus nesta cidade e neste país apresento ante vossa consideração as seguintes razões para amar e respeitar o dia do Senhor.

I. PORQUE É O DIA DO SENHOR.

Este é o dia que o SENHOR fez; regozijemo-nos e alegremo-nos nele” (Sl 118:24).

Achei-me em espírito, no dia do Senhor, e ouvi, por detrás de mim, grande voz, como de trombeta”(Ap 1.10).

É Seu como exemplo. É o dia em que descansou de Sua assombrosa obra de redenção. Do mesmo modo que Deus descansou no sétimo dia ao acabar suas obras, declarando bendito assim o sábado, consagrando-o de maneira especial sobre os demais dias, assim o Senhor Jesus Cristo descansou neste dia de toda sua agonia, penalidade e humilhação. “Portanto, resta um repouso para o povo de Deus” (Hb 4.9). O dia do Senhor é Sua propriedade do mesmo modo que a Ceia do Senhor Lhe pertence. Ela é Sua mesa, Seu pão, Seu vinho. Com ela chama Seus convidados. Os enche de gozo e do Espírito Santo. Assim é com o dia do Senhor. Todos os dias do ano são de Cristo, porém de cada sete, um é especial; é para Ele o dia do mercado, o dia em que sai em busca das almas para adquiri-las. Ele o fez e o estabeleceu com este motivo. Do mesmo modo que plantou o jardim do Éden, assim cercou este dia e o fez Seu de forma particular.

Esta é a razão porque o amamos e o dedicamos a Ele inteiramente. Amamos tudo que é de Cristo. Amamos Sua Palavra. Nos é mais preciosa do que milhares de ouro e prata. “Quanto amo a tua lei!” (Sl 119). Amamos Sua casa. É o lugar de nosso encontro com Cristo, onde Ele se encontra conosco e rodeia nosso lugar com suas misericórdias. Amamos Sua mesa. É o lugar em que é adornada diante de nós, verdadeiro banquete em que Sua bandeira sobre nós é o amor, onde desfaz nossa cadeias e unge nossos olhos e faz arder, inflamar nossos corações com santo gozo. Amamos a Seu povo, porque os que o compõem são seus, membros de Seu corpo, lavados em Seu sangue, cheios do Seu Espírito Santo, nossos irmãos e irmãs por toda a eternidade. E amamos o dia do Senhor porque é Seu. Cada hora dEle nos é mui cara, mais doce que o mel, mais preciosa que o ouro. É o dia em que Ele se levantou do sepulcro para nossa justificação. Nos recorda Seu amor e Sua obra completamente acabada e perfeita, e seu descanso da mesma. E ousadamente podemos dizer que quem não ama nem defende a inteira dedicação ao dia do Senhor, não ama de fato a Jesus Cristo.

Ó, transgressores do dia do Senhor, quem quer que sejais, sois ladrões sacrílegos! Quando roubais as horas do dia do Senhor para vossos negócios ou prazeres, estais roubando a Cristo as preciosas horas que Ele reivindica como suas. Não vos ofenderíeis se estivessem tramando algum plano com vistas a abolir a Ceia do Senhor e tratando de convertê-la em uma comida comum, ou numa festa em que se permitisse a entrada aos libertinos ou bêbados? Não se partiriam vossos sentimentos vendo que a taça da comunhão era convertida em uma taça de bebida indecente nas mãos de bêbados? E pensais que é melhor aquilo que propõem os diretores companhia da estrada de ferro? O dia do Senhor está tão sujo como suja está Sua mesa. Certamente podemos afirmar com as palavras do Dr. Love, aquele servo eminente de Deus, agora que se pretende trabalhar no dia do Senhor: “Maldita toda ganância, maldito todo deleite, maldita toda saúde que é obtida por meio da criminosa usurpação do sagrado dia”.

II. PORQUE É UMA RELÍQUIA DO PARAÍSO DO ÉDEN E UM TIPO DO CÉU.

O primeiro sábado surgiu entre os enramados jardins de um paraíso sem pecado. Quando Adão foi feito à imagem de seu Criador, foi colocado no jardim do Éden para cultivá-lo e guardá-lo. Sem dúvida consumiria suas energias. Recolher os ramos de uva, colher os frutos das figueiras e palmeiras, canalizar a água para regar as árvores frutíferas e flores requeria todo seu tempo e habilidade. O homem nunca foi criado para permanecer inativo.

Quando o sábado se estabeleceu, todos seus instrumentos rurais deviam ser encostados, o jardim naquele dia não requeria mais cuidados. Sua pura e serena mente podia olhar além do que se vê neste mundo de realidades não espirituais. Caminhava no horto buscando um mais profundo conhecimento de Jeová e seus caminhos, com seu coração mais e mais inflamado de amor e com seus lábios em perfeitos louvores. Ainda no paraíso terreno o homem necessitava do sábado. Sem ele ainda o mesmo Éden estaria incompleto. Que pouco sabem dos prazeres do Éden, das delícias da íntima comunhão com Deus, os que desejam arrancar do domingo esta relíquia do mundo que durante certo tempo foi sem pecado!

É também um tipo do céu. Quando um crente deixa de lado sua pluma ou seus telhares, abandona seus cuidados terrenos, troca suas roupas de trabalho pelas de um dia festivo e vem à casa de Deus, prefigura o que sucederá no dia em que cessará a grande tribulação para apresentar-se às bodas do Cordeiro, ao ser levado feliz à presença do Senhor. Quando se senta a ouvir a Palavra de Deus e escuta a voz do pastor, guiando e alimentando sua alma, evoca aquele tempo quando o Cordeiro estará no meio do trono e alimentará e guiará sua alma à fontes de águas vivas. Quando une seu louvor entoando os salmos do saltério, pensa no dia quando terá em suas mãos a harpa celestial entoando o cântico:

Onde das congregações não haverá separação, nem o dia do Senhor nenhuma interrupção”.

Quando ele se recolhe à sua casa e tem comunhão com Deus em seu lugar secreto, ou como Isaque em algum lugar próximo à sua tenda, porém em intimidade, pensa naquele dia quando “será coluna na casa de nosso Deus, e nunca mais sairá fora”.

Esta é a razão porque amamos o dia do Senhor. Esta é a razão porque chamamos ao domingo dia de delícias. Compreendemos e sentimos que um domingo bem dedicado ao Senhor e às almas é um dia de céu na terra. Por esta razão desejamos que nossos domingos sejam inteiramente dedicados a Deus. Amamos passar todas as horas do domingo nos exercícios públicos ou privados da adoração a Deus, a menos que qualquer urgente demanda deva ser atendida por motivos de necessidade ou de misericórdia. Em sua manhã nos é grato levantarmos cedo e dormirmos tarde, com o objetivo de que nos resulte um dia longo, a fim de que seja mais duradoura nossa comunhão com Deus.

Que pouco sabem disso os que nunca estarão no céu! Uma palha flutuando na superfície de uma corrente de água pode indicar-nos a direção que ela segue. Aborreces o dia do Senhor? É para você uma espécie de inferno sua observância? O que te diz estas palavras já passou por um tempo em que se sentiu como você. Não achas em sua observância nenhum descanso ou paz. Dizes: “Que pesado é”. “Quando se abolirá o dia do Senhor e poderei me dedicar inteiramente aos meus negócios?”. Ah, mui certamente te acharás no inferno! O inferno é o lugar único e adequado para ti; é o que te corresponde. O céu é um desejado, permanente santo dia do Senhor. Em troca, no inferno não há dia do Senhor.

III. PORQUE É UM DIA DE BÊNÇÃO

Quando Deus instituiu o sábado no paraíso, disse: “E abençoou Deus o dia sétimo e o santificou” (Gn 2.3). Não só o consagrou como um dia santo, mas o fez um dia de bênção. Também, quando o Senhor se levantou da morte no primeiro dia da semana antes que alvorecesse, se revelou a Si mesmo aos seus discípulos que se dirigiam a Emaús e com sua conversa fazia arder seus corações (Lc 24.13). Na mesma tarde daquele dia se apresentou no meio dos seus discípulos e disse: “Paz seja convosco!” (Jo 20.19). E soprou sobre eles dizendo: “Recebei o Espírito Santo” (Jo 20.22). Novamente, passados setes dias, isto é, no domingo seguinte, Jesus de novo veio e se pôs no meio deles e com inefável graça e misericórdia se revelou a si mesmo ao incrédulo Tomé (Jo 20.26). Foi também no dia do Senhor que o Espírito Santo foi derramado em Pentecostes (Atos 2.1, comparado com Lv 23.15,16 – “ Contareis para vós outros desde o dia imediato ao sábado, desde o dia em que trouxerdes o molho da oferta movida; sete semanas inteiras serão. Até ao dia imediato ao sétimo sábado, contareis cinqüenta dias; então, trareis nova oferta de manjares ao SENHOR.”). Aquele princípio de bênçãos espirituais, aquele primeiro advento do Espírito à igreja cristã, teve lugar no dia do Senhor. Nesse mesmo dia o amado João, em seu exílio na ilha de Patmos, longe da congregação dos santos, ficou cheio do Espírito Santo e teve a visão celestial que o fez escrever o livro que temos chamado Apocalipse ou Revelação. Assim é que em todas as épocas, desde o princípio do mundo e em qualquer lugar onde há um crente, o dia do Senhor tem sido dia de dupla bênção. Todavia é assim e seguirá sendo mesmo que todos os inimigos de Deus ranjam os dentes. Certamente Deus é um Deus de graça e Sua obra Ele não entrega a nenhum limite de lugar ou de tempo. No entanto, é igualmente certo que todo escárnio e engano dos ímpios não poderão alterar Seus desígnios; desígnios determinados por Sua vontade: bendizer de forma especial e abundante a Sua Palavra no dia do Senhor. Os fiéis pastores de todos os países podem testificar que os pecadores se convertem mais freqüentemente no dia do Senhor, que Jesus se manifesta a Si mesmo por meio da pregação e das ordenanças mais freqüentes em Seu próprio dia. Os santos, como João, são chamados pelo Espírito Santo no dia do Senhor e se regozijam com serenas e profundas visões da eternidade.

Ó, desventurados, que planejais eliminar de nossa amada Escócia este bendito dia de dupla bênção. “Não sabem o que fazem”. Desejais arrebatar dos nossos concidadãos amados o dia em que Deus abre as janelas do céu e derrama sua abundante bênção. Quereis que os céus da Escócia se convertam em céus de bronze, duros, que são uma verdadeira maldição, e os corações de seu povo em corações de ferro? Quereis que o som dos dourados sinos do nosso eterno Sumo Sacerdote, ressoando sobre as montanhas de nosso país e o alento do Espírito Santo manifesto em muitas de nossas congregações, despertem vossos esforços satânicos com vistas a trocar o doce som da misericórdia pelo ensurdecedor estrondo dos vagões de trem? Acaso o notável vigor da vivificada e purificada Igreja da Escócia tem dado passagem às torrentes de blasfêmias que proferis contra o dia do Senhor? Vossas almas murchas não têm necessidade alguma do orvalho e irrigação celestiais? Não compreendeis que vós mesmos estais blasfemando do dia em que vossas próprias almas podem chegar a ser salvas? Não é certo que no inferno, com lágrimas de angústia, muitos de vós lamentarão ao lembrar vossos esforços contra a luz e contra as advertências que são feitas, e vão se amontoando sobre vossas almas tudo aquilo que lhes conduzirá à eterna perdição?

Aos que são filhos de Deus neste país, desejo agora, em nome do nosso comum Salvador, que é o Senhor de Seu dia, dirigir esta exortação.

I) TER EM ALTA ESTIMA O DIA DO SENHOR

Quanto maior for o desprezo e desdém dos que o tratam, vós amai-os mais e mais. Quanto mais fortemente se desencadeia a tormenta de blasfêmias uivando ao vosso redor, sente-se aos pés do Senhor mais intimamente. Ele deve reinar até que haja posto a seus inimigos por estrado de seus pés (Hb 10.13). Aproveite diligentemente todo seu santo tempo. Deverias convertê-lo no dia mais ocupado dos sete; embora que somente nos negócios do vosso Pai. Evita o pecado nesse dia santo. Todo filho de Deus deve evitá-lo cada dia, porém principalmente no dia do Senhor. É tanto um dia de dupla bênção como de dupla maldição. O mundo terá que responder pelos seus pecados cometidos no santo tempo do Domingo. Passa o dia do Senhor em Sua presença. Passa-o como havereis de passá-lo no céu. Que os louvores e as obras de misericórdia ocupem muito do seu tempo como ocupam do Senhor mesmo.

II) DEFENDENDO O DIA DO SENHOR

Levante vosso sereno e de algum modo acovardado testemunho contra as profanações do dia do Senhor. Use toda vossa influência, seja como homem de estado, ou como magistrado, ou professor, ou como pai, ou como amigo tanto publicamente como em secreto, para  lutar em defesa da eterna dedicação ao dia do Senhor. Esta obrigação é imposta pelo mesmo quarto mandamento. Não olheis nunca qualquer infração do domingo sem reprovar o transgressor. Mesmo os mais mundanos, com todo seu orgulho e menosprezo contra nós, não podem impedir que os recriminemos de quebrar o dia do Senhor. Recordais sempre que Deus e a Bíblia estão a vosso lado e vereis como estes homens maldirão seu próprio pecado e loucura mesmo que infelizmente tarde demais. Todos os filhos de Deus na Escócia devem levantar seu testemunho unanimemente  de forma especial contra estas três profanações públicas do dia do Senhor.

1. Manter abertas nesse dia as bibliotecas públicas. Nesta cidade e em todas as cidades da Escócia, digo-vos que podeis encontrar em suas salas muitos de nossos homens de negócios consultando e revistando todo tipo de periódicos, revistas e livros, durante todas as horas do culto. E especialmente durante as tardes do domingo estas salas estão cheias como qualquer pequena igreja. Ah, pecadores cheios de culpa! Quão claramente mostrais que vos encontrais no caminho largo que conduz à perdição! Se fosses assassinos ou adúlteros, talvez não vos atreverias negar esta acusação. Não sabeis vós — e todos os sofismas do inferno não poderiam provar o contrário — que o mesmo Deus que disse: “Não matarás”, também disse: “Lembra-te do dia de sábado, para o santificar”? O assassino que é levado ao patíbulo e o educado e fino transgressor do dia do Senhor são um, são iguais aos olhos de Deus.

2. Manter abertos no domingo os estabelecimentos, como bares, cervejarias, cafés... Tais lugares são a maldição da Escócia. Nunca posso evitar quando vejo em um de tais estabelecimentos o letreiro: “Autorizado para vender licores”, o pensar que a licença que têm é a de arruinar as almas. Tais estabelecimentos são amplas avenidas à pobreza e farrapos desta vida e, como alguém tem dito: “o curto atalho que conduz rapidamente ao inferno”. Pode permitir-se, assim que nesta terra de luz e testemunho reformado, esses lugares de perdição e antros de iniquidade — verdadeiras armadilhas de almas — abram suas portas no dia do Senhor? Podemos permitir que os donos dos mesmos se enriqueçam e prosperem graças a este mercado sujo, e que muitos deles se atrevam a dizer que, a não ser pelo negócio que fazem no dia do Senhor não poderiam seguir avante sem prejuízo? Com forte fundamento podemos dizer: malditas sejam as ganâncias deste dia! Ó homens baixos e miseráveis! Não pensais que cada moeda que cai sobre o caixa, naquele dia devorará vossa carne como se fora fogo, e que cada gota de licor consumido em vossos palácios de perdição servirá para avivar mais a chama daquele “fogo que nunca se apaga”?

3. O funcionamento da estrada de ferro no domingo. A maior parte dos diretores da Companhia da Estrada de Ferro de Edimbugo-Glasgow tem evidenciado sua decisão para fazer valer seus serviços também aos domingos. Todos os canais de infidelidade têm sido abertos a unha e circulam abundantemente os folhetos e tratados blasfemos por todo o país desacreditando e menosprezando o bendito dia do Senhor, como se não houvesse olho onisciente no céu, como se não existisse rei sobre o monte Sião, nem houvesse de ocorrer um dia em que se haverá de prestar contas a Deus.

Compatriotas cristãos, despertai e, cheios do mesmo espírito que libertou nosso país das negras superstições do passado, lutemos contra a invasora corrente de infidelidade e inimizade contra o domingo.

Vós, homens culpados que sob a inspiração de Satanás estais guiando os obscuros exércitos dos que quebram os dia do Senhor, vossa situação está carregada de responsabilidade. Sois ladrões; roubais ao Senhor Seu santo dia. Sois assassinos: atentais contra a vida das almas de vossos servos, ou dependentes. Deus disse: “...não farás nenhum trabalho, nem tu, nem teu filho, nem tua filha, nem o teu servo, nem a tua serva, nem o teu animal, nem o forasteiro das tuas portas para dentro” (Ex 20.10), porém vós os compelis a quebrar a Lei de Deus e vendeis suas almas para obter com miserável ganância. Sois pecadores que pecais conscientemente contra a luz de vossa consciência. Vossa Bíblia, as palavras de vossos familiares piedosos e as ternas admoestações dos fiéis homens de Deus soam em vossos ouvidos, no entanto permaneceis perpetuando vossa vergonhosa obra e os vos gloriais nisso. Sois traidores de vosso país. A Lei de vosso país declara que deveis “observar um descanso santo de todas vossas palavras, obras ou pensamentos durante o domingo” e vós a desprezais considerando-a como fruto de uma superstição antiquada. Não foi a quebra constante do sábado o que fez com que Deus reprovasse a Seu povo, Israel? E vós tratais de trazer a mesma maldição sobre a Escócia. Sois suicidas morais, que assassinais vossas próprias almas, proclamando ao mundo que não sois povo de Deus e precipitando sobre vossas almas a sentença de que se fazem réus os que quebram o dia do Senhor.

Concluindo, proponho a calma e serena consideração a todo homem sério as seguintes perguntas:

1. Podeis nomear algum ministro, de qualquer denominação em toda a Escócia, que não sustente a inteira dedicação do dia do Senhor como um dever inevitável?
2. Haveis falado a algum verdadeiro crente em qualquer país, que ame a Cristo e viva santamente, que não se deleite em guardar inteiramente santo para Deus o dia do Senhor?
3. É sábio participar da opinião dos que interpretam a seu gosto a vontade de Deus relativa ao dia do Senhor; interpretação dos infiéis, os que menosprezam, os que não vivem santamente; homens que têm os olhos cegos para as coisas de Deus; os inimigos da justiça, que citam a Sagrada Escritura como Satanás, para enganar e trair?
4. Se, em oposição ao unânime testemunho dos mais sábios e mais santos servos de Deus, contra os claros avisos da Palavra de Deus, contra as mesmas palavras de vosso catecismo aprendido aos joelhos de vossa piedosa mãe, contra a voz de vossa injuriada consciência, vos unis às fileiras dos que traspassam o dia do Senhor, não é isto pecar contra a luz, não é enganar gravemente as vossas almas; não é constituir-se réus do justo juízo de Deus?

Minha oração é que estas palavras de verdade e sobriedade os chame a atenção com as mesmas palavras de Deus e alcancem vossos corações com todo Seu divino poder.

  • Dia Do Senhor Como Mandamento: Ex 16.22-30; 8-11; 35.1-3. Lv 19.3-30. Dt 5.12-15. Ne 9.14.
  • Dia Do Senhor: Sinal Do Povo De Deus: Ex 31.12-17. II Re 4.23. Ez 20.12. Lm 1.7. Hb 4.9.
  • Castigo Para Os Que Não Guardam O Dia Do Senhor: Nm 15.32-36. Lv 26.33-35. II Cr 36.21. Jr 17.19-29. Lm 2:6. Ez 20.12-26. Amós 8.4-14.
  • O Dia Do Senhor: Dia De Bênção: Gn 2.2. Ex 16.24. Lv 24.8. Nm 28.9,10. Is 56:1-8; 58.13-14. Jo 20.1,19,26. At 2:1. (Comparar com Lv 23.15. Ap 1.10)
  • O Dia Do Senhor No Tempo Dos Evangelhos: Sl 118.24. Is 66:23. Ez 46.1. Mc 2.27,28. At 2.1; 20.6-7. I Co 16.2. Ap 1.10

Fonte: Os Puritanos

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