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February 28, 2020

As 3 Fases da Salvação - Thiago Machado Silva


A salvação do pecado pode ser dividida em três categorias: justificação (passado), santificação (presente) e glorificação (glorificação). Nós fomos salvos, estamos sendo salvos, seremos salvos. Talvez, a maneira mais fácil de entender essas três categorias é lembrar dos três P's: penalidade, poder e presença.

1 - Justificação: Fomos salvos da penalidade do pecado
Cristo sofreu a penalidade por nossos pecados na cruz do Calvário. Quando colocamos nossa fé em Cristo, recebemos liberdade da culpa do pecado. Somos justificados diante de Deus, nosso juiz, porque nossa penalidade foi paga na cruz. A justificação ocorre uma única vez na vida do crente (Rm 8.1–2).

2 - Santificação: Estamos sendo salvos do poder do pecado
Agora que recebemos a graça de Deus como um selo permanente (2Co 1.20–22), iniciamos um processo de santificação. Estamos sendo salvos do poder do pecado pelo poder do Espírito. Antes de sermos justificados, nossas vontades estavam totalmente sujeitas ao poder do pecado. Agora, o poder do pecado está sendo quebrado. Nós, que antes éramos escravos do poder do pecado, estamos agora livres para servir a Deus. De fato, ainda pecamos, mas com o tempo aprendemos cada vez mais a escolher a santidade. Nossa santificação está em andamento.

3 - Glorificação: Seremos salvos da presença do pecado
Quando concluirmos a jornada aqui na terra, entraremos na presença do Senhor para sempre. Seremos glorificados. Em sua presença, o descanso de nossa alma será finalmente completo, pois o pecado e sua devastação deixarão de nos atacar. Embora agora estejamos cercados pela pecaminosidade, e o pecado continue se apegando aos nossos corações, um dia iremos para um lugar onde o pecado não existirá mais. Em nossa glorificação (quando Cristo retornar), finalmente teremos liberdade da própria presença do pecado. O dia da nossa glorificação está chegando, quando trocaremos a presença persistente do pecado pela presença perfeita de Deus.
Tenha certeza de sua justificação. Em Cristo, você foi totalmente liberto da penalidade do pecado. Seja paciente em sua santificação. A cada dia, você está sendo liberto cada vez mais do poder do pecado. Aguarde esperançosamente por sua glorificação. Ela está por vir. Um dia, você será finalmente liberto da presença do pecado.

February 17, 2020

8 Provas de que o Dom de Línguas de Atos 2 é o mesmo de 1 Coríntios



Antes de mais nada, esclareço que considero os pentecostais meus irmãos. Tenho comunhão com alguns deles e creio que são irmãos verdadeiros. Escrevo este texto na esperança de trazê-los a uma compreensão mais bíblica deste dom. Meu objetivo não é agredir a fé de ninguém. Eis os 8 motivos pelos quais creio firmemente que o dom de Atos 2 é o mesmo de 1 Coríntios.

1. A Sequência do dom - Não há registro bíblico que indique a mudança no dom entre Pentecostes e a Igreja de Corinto. Logo, é natural esperar que o dom exercido em Jerusalém, igreja mãe, núcleo dos apóstolos, seja o mesmo encontrado nas igrejas filhas, como é o caso de Corinto.

2. A Simplicidade da revelação - A revelação de Deus é simples. Ela alcança todos os tipos de pessoas, desde intelectuais até aqueles que não tiveram oportunidade de estudo. Por isso, alguém que começa a ler o Novo Testamento e, chegando em Atos 2, depara-se com o dom de línguas, entendendo-o como dom de idiomas, irá continuar lendo o texto sagrado com está definição em mente, a menos que o texto indique uma mudança no dom.

3. O Objetivo do dom - Qual foi o objetivo primeiro do dom de línguas? Veja Atos 2.9-11. Da boca dos estrangeiros ouvimos o cumprimento deste objetivo: ouvimos falar em nossas próprias línguas as grandezas de Deus. O objetivo era falar do Evangelho àqueles que não entediam a língua dos judeus. A grande barreira que separava aqueles homens era a língua e Deus resolveu isso através do dom. O mesmo se deu em Corinto. A barreira “idioma” caiu quando os crentes passaram a anunciar o Evangelho na língua daqueles que passavam por aquela cidade.

4. O Ambiente demográfico - Jerusalém e Corinto se assemelham em pelo menos uma coisa: a grande quantidade de estrangeiros. Na festa do Pentecostes, milhares de peregrinos de várias nações chegavam em Jerusalém para a festa. Em Corinto não havia festa, porém, por ser cidade portuária, capital da imoralidade da época e famosa pelo saber, também recebia milhares de estrangeiros em seu solo. Isto reforça ainda mais a necessidade de um dom para comunicação da Graça de Deus a estes estrangeiros.

5. A Origem gramatical da palavra - As palavras usadas para línguas tanto em Atos, quanto em Corinto, indicam linguagem humana normal. As palavras são dialektos e glossa. Ambas significam línguas, idiomas. Se Paulo quisesse se referir aos dons como linguagem ininteligível, extática, ele usaria a palavra própria para isso algaravia, nunca palavras que indicassem idiomas.

6. As línguas precisavam ser interpretadas - Em Corinto, para que todos compreendessem o que estava sendo dito aos estrangeiros, havia intérpretes capacitados pelo Espírito para a tradução. Veja 1 Coríntios 12.10; 14.5,23,26-28. Havia tradução porque eram idiomas. Idiomas podem ser traduzidos. O mesmo não acontece com linguagem sem sentido. Alguém consegue traduzir os sons de uma criança que ainda não fala?

7. A Variedade de línguas - Paulo fala em 1 Coríntios 12.10 em variedade de línguas e em 14.18 na sua capacidade de falar outras línguas. O ponto aqui é que você pode ter uma variedade de idiomas, mas não uma variedade de linguagem sem sentido.

8. As línguas eram um sinal para o Israel descrente - Em 1 Coríntios 14.21, Paulo cita Isaías 28.11,12 mostrando que as línguas são um sinal não para os justos, mas para os injustos, aqueles que não ouviram a mensagem de Deus ― o Israel incrédulo. Note que Paulo está comparando as línguas de Corinto com um idioma real e estrangeiro. Há tempos que Deus profetizava a abertura do reino aos gentios, e este texto de Isaías é justamente parte destas profecias. Visto que o povo de Deus rejeitou a sua mensagem, esta seria anunciada a povos gentios por meio de línguas estranhas à nação judaica, fato que aconteceu no Pentecostes, em Atos 2, com manifestação de idiomas.

A conclusão é que o dom de línguas bíblico é o dom de idiomas. Deus concedeu este dom à sua igreja em um momento decisivo de sua história, para pregação do Evangelho. Que Deus abençoe o povo que se chama pelo seu nome para que seja cada vez mais fiel à sua Palavra.

December 24, 2019

A Observância do Natal - Stephen D. Doe



Não há argumento contra se ter um calendário para a igreja ou a observação de “dias sagrados” no Catolicismo Romano, na Ortodoxia Oriental ou no Protestantismo em geral. É somente no ramo Reformado do Protestantismo que a questão tem sido levantada [1]. Declarando de uma forma simples, a questão é esta: nossas igrejas devem (ou podem) fazer algo especial para recordar os eventos notáveis na vida de Jesus, quando a Igreja Cristã em geral, juntamente com nossa sociedade secular, comemora aqueles eventos?

Por exemplo, um pastor deve pregar sobre o nascimento de Jesus em Dezembro, a medida que o restante da Cristandade e nossa sociedade se move para o Natal? Deve ser agendado um culto de Natal ou um culto de Sexta Feira da Paixão? Um sermão sobre a ressurreição de Cristo é apropriado no Domingo de Páscoa? Ou, estas coisas são pelo menos permitidas?

Por outro lado, negamos nossa reivindicação de sermos Reformados de acordo com a Palavra de Deus, se fizermos estas coisas que não estão ordenadas especificamente em nenhum lugar nas Escrituras? Não estamos falando sobre árvores de Natal e luzes, guirlanda e o enviar de cartões. Estamos falando estritamente sobre se a igreja de Jesus Cristo pode observar eventos particulares na vida de Jesus em datas não apresentadas na Bíblia, e se ela pode prestar culto ao seu Senhor em outros dias, além do Domingo semanal.


O Princípio Regulador

O princípio regulador de adoração é singularmente uma idéia Reformada. Ele é expresso na Confissão de Fé de Westminster (XXI:1) desse modo: “O modo aceitável de adorar o verdadeiro Deus é instituído por Ele mesmo, e tão limitado por Sua própria vontade revelada, que não deve ser adorado segundo as imaginações e invenções dos homens”. Devemos adorar a Deus do modo que Ele ordenou, e não de acordo com os nossos próprios desejos.

Tendo dito isto, devemos reconhecer que a aplicação do princípio regulador tem variado amplamente dentro dos círculos Reformados. Os Reformados continentais não têm ido na mesma direção que os Puritanos ingleses e os Presbiterianos escoceses. Por exemplo, a Segunda Confissão Helvética de 1566 declara (XXIV): “Ademais, se na liberdade cristã, as igrejas celebram de modo religioso a lembrança do nascimento do Senhor, a circuncisão, a paixão, a ressurreição e Sua ascensão ao céu, bem como o envio do Espírito Santo sobre os discípulos, damos-lhes plena aprovação”.

A velha Igreja Reformada Holandesa, no famoso Sínodo de Dort (1618-1619), adotou uma ordem para a igreja que incluía a observância de vários dias do calendário cristão (art. 67). Até hoje, é prática de muitas das igrejas Reformadas continentais usar tal calendário. Isto deve pelo menos fazer com que demos uma pausa em como procuramos aplicar o princípio regulador nestes assuntos, visto que a Igreja Presbiteriana Ortodoxa tem relações fraternais com inúmeras igrejas que seguem a Ordem de Dort.

Dentro das igrejas Presbiterianas que aderem aos padrões de Westminster, tem havido também uma considerável variação. Certamente em nossos dias há diversidade dentro e fora da Igreja Presbiteriana Ortodoxa sobre o assunto. Nada disto, certamente, prova alguma coisa, a não ser o fato de que o que os cristãos devem fazer com estes “dias sagrados” é um ponto controvertido nos círculos Reformados.


Os Argumentos contra os Dias Sagrados

Muitos dos argumentos sobre as origens destes dias se focam sobre o abuso deles na história e na sociedade atual. Contudo, argumentos baseados nos abusos não são muitos úteis, pois o mero abuso de uma coisa não nos diz se ela pode ou não ser usada corretamente. O casamento, por exemplo, está sujeito aos abusos por causa do pecado do homem, todavia, o casamento é inerentemente bom, visto que foi instituído por Deus.

Nem podemos usar a associação dos dias sagrados com a Igreja Católica Romana para resolver a questão. Os Reformadores não condenaram tudo o que a Igreja Católica disse ou fez. O batismo infantil, por exemplo, era e é praticado pela Igreja Católica Romana. Isto, por si só, não levou os Reformadores a rejeitarem o batismo infantil ou até mesmo negar que os batismos realizados nas igrejas Católicas Romanas eram válidos.

O argumento principal contra os dias sagrados é que a observância deles viola o princípio regulador de adoração, visto que sua observância não é especificamente ordenada na Bíblia. Isto poderia parecer ser um ponto irrefutável – se não fosse o fato que, como já mencionado, as igrejas Reformadas têm, no decorrer dos séculos, diferido em sua aplicação do princípio regulador neste assunto.

Deixe-me aqui também desafiar o que se tem freqüentemente dito ser um fato aceitável, a saber, que João Calvino não observou nenhum calendário cristão. T.H.L. Parker (em Calvin’s Preaching [Louisville, Ky.: Westminster, John Knox Press, 1992], pp. 160–62) organizou evidências de registros existentes para mostrar que nos anos 1549, 1550 e 1553 Calvino “quebrou” a série de sermões que ele estava então pregando e pregou mensagens especificamente sobre o nascimento de Cristo, sobre Sua morte e ressurreição, e sobre o Pentecoste nos tempos “apropriados”. Agora, o fato de João Calvino ter feito alguma coisa não significa que estamos livres para fazê-la também, se ela viola as Escrituras. Todavia, há um ponto importante aqui. A companhia dos pastores de Genebra aboliu a celebrações de festas, mas aqueles pastores, incluindo Calvino, ainda estavam livres para pregar sobre os eventos da vida de Cristo em certas ocasiões.


Liberdade Cristã

O princípio regulador deve ser interpretado como dizendo que Deus ordenou um pastor não pregar sobre certas coisas em certos períodos do ano? Isto não pode, de forma alguma, ser verdade. A igreja é ordenada a ensinar tudo o que Cristo ordenou (Mateus 28:20), e a igreja sempre entendeu que isto inclui o todo da Escritura (cf. 2 Timóteo 3:15-17; 4:2; Atos 20:27). A pregação do significado redentivo-histórico de toda a vida de Cristo é proveitosa para o povo de Deus. Uma justificativa adicional pode ser feita, a saber, que uma ênfase sobre o nascimento de Cristo se levanta quando a igreja está batalhando para defender a verdadeira humanidade de Cristo, e que a igreja hoje também enfrenta uma batalha para defender a realidade da Encarnação como um evento no tempo e no espaço. O nascimento de Cristo é parte de todo o conselho de Deus, o qual deve ser pregado.

O assunto, na verdade, é uma questão de liberdade. Esta é a questão com a qual James Bannerman lutou quando ele lidou com os “feriados eclesiásticos” (em The Church of Christ [Edinburgh: Banner of Truth Trust, 1974], pp. 406–20). A igreja tem autoridade para estabelecer certos feriados e para ordenar que pastores e assembléias os observem? A questão da imposição destas coisas era o assunto real que estava por detrás da linguagem da Confissão de Fé de Westminster. Seus elaboradores estavam acostumados com as cargas impostas em sua adoração pela Igreja da Inglaterra, que requeria tais coisas como livros de oração e vestimentas. Era a imposição de tais coisas, e não as coisas em si mesmas, que constituíam o assunto. Por exemplo, os ministros Puritanos deveriam vestir becas, mas não se eles fossem obrigados a assim fazer. Tal assunto era uma questão de liberdade cristã (cf. CFW, XXI).

A igreja tem alguma autorização para obrigar o povo de Deus a fazer algo além do Domingo semanal, quando o que se está em questão é o calendário da igreja? Não. O princípio regulador, como declarado em nossa Confissão de Fé, significa que, visto que Deus não ordenou a um pastor pregar sobre o nascimento de Jesus Cristo no mês de Dezembro, ele não pode assim fazê-lo? Não. Se eu, como um pastor, não tenho a liberdade de pregar, à partir da Palavra de Deus, o que eu vejo que seja bom para o povo de Deus, então, o princípio regulador está sendo mal aplicado. E se uma assembléia não é livre para prover ao povo de Deus uma adoração para celebrar os feitos poderosos de Deus na vida de Seu Filho em qualquer ocasião, então, nós temos limitado a igreja da nova aliança mais do que a igreja da velha aliança. A igreja exerceu sua liberdade na adoração estabelecendo a Festa de Purim (Ester 9:18-32). A igreja apostólica exerceu sua liberdade se reunindo em muitas ocasiões, além do dia do Senhor para adorar, e agindo como uma comunidade (cf. Atos 1:14; 2:42-47; 4:23-31; 5:42; 13:2; 20:7-38). Este é um antegozo da igreja na glória, onde ela estará sempre adorando (Apocalipse 4).

Deus nos ordena a adorá-lo uma vez por semana de uma maneira corporativa, mas permite que apliquemos princípios bíblicos para adorá-Lo em outros períodos. A igreja sob a nova aliança não tem menos liberdade do que a igreja sob a velha aliança; nós não somos a igreja mais jovem, mas a igreja que foi batizada no Espírito de Cristo. Se devemos aplicar o princípio regulador sem claramente entender estas coisas, então, devemos condenar a igreja apostólica por se reunir diariamente, visto que Deus nunca ordenou tais reuniões. Em vez disso, eles entenderam que o que Deus estava ordenando era que eles O adorassem de uma forma aceitável (cf. João 4:24; Romanos 12:2; Hebreus 10:25; 13:15).

Este equilíbrio é visto no exemplo do nosso Salvador, que exerceu Sua liberdade de consciência, quando não violando o princípio regulador, esteve presente na Festa de Dedicação (isto é, Chanucá; cf. João 10:22). Esta festa extra-bíblica não foi ordenada por Deus na Escritura, mas foi iniciada pelos judeus para comemorar a re-dedicação do templo, quando o Antigo Testamento já estava “fechado”. Jesus era livre para subir a Jerusalém ou não. Deus ordenou que O adoremos, e Jesus estava usando esta ocasião para obedecer o mandamento de Deus.

A igreja pode ordenar que o povo de Deus se reúna no culto de Natal? Não. A igreja pode adorar nesta ocasião sem requerer a presença de todos? Sim. Um ministro pode pregar sobre qualquer passagem das Escrituras em qualquer época do ano? Sim. Ele deve necessariamente pregar sobre a Encarnação em Dezembro? Não.


Stephen D. Doe é pastor da Igreja Presbiteriana Ortodoxa da Aliança em Barre, Vermont.



NOTA DO TRADUTOR:

[1] - Contudo, não é esta a realidade do Brasil. O ramo do protestantismo que mais tem se levantado contra o Natal e outras festas cristãs, de uma forma extremamente legalista, é o ramo pentecostal e neo-pentecostal, atribuindo tais festas não somente ao mundo, mas inclusive ao próprio diabo.

Tradução livre: Felipe Sabino de Araújo Neto
Cuiabá-MT, 18 de Dezembro de 2004.

December 10, 2019

6 razões pelas quais não precisamos de líderes de louvor no culto - Jonathan Aigner




"De muitas maneiras, o líder de música é a pessoa mais importante na liderança da grande música congregacional."

Um amigo me enviou essa citação na semana passada, e a encontrei enterrada no material promocional de algo chamado "Word in Song", organizado por um grupo chamado Emu Music. Uma olhada na guia "Quem somos" revela que esse grupo é predominantemente anglicano. Tenha isso em mente. Não estamos falando de muitos discípulos de Hillsong ou evangélicos quase carismáticos aqui.

Naturalmente, como alguém que acredita de todo o coração que toda igreja cristã deve ser uma igreja que canta, essa citação e sua fonte me fizeram tremer. Há muito tempo é óbvio que, à medida que a sociedade moderna passou de fazer música a consumir música, a igreja livremente seguiu o exemplo. Mas cada vez mais a igreja litúrgica também está se rendendo aos padrões da música pop comercial. E um de seus princípios centrais é que você deve ter alguém cantando ao microfone. Você tem que ter um líder de música.

Aqui estão algumas razões pelas quais devo discordar.

1. Leva as pessoas ao consumo de música, e não à participação.

Durante minha última visita ao consultório do dentista, minha higienista me perguntou o que eu fazia. Depois que terminei de enxaguar e cuspir, disse a ela que era diretor musical da igreja. Como geralmente acontece quando as pessoas não entendem música sacra, ela me contou tudo sobre sua igreja, que naturalmente se encontra em um supermercado convertido. Aparentemente, seu pastor tocou uma vez na banda de Tommy Lee. Não, não Mötley Crüe, uma de suas outras bandas igualmente horrível, mas menos conhecida.
  
“Então, como esperado, nosso pastor realmente garante que nossa adoração seja incrível. É como um show de rock toda semana. "

"Sim, é quase o que eu esperava", eu disse.

A igreja que cultua não consome música, ela faz música. Mas o conceito moderno de vocalista veio da música pop comercial, escrita para um solista ou um pequeno grupo. Não é de admirar, então, que a maioria dos cultos pop ao vivo soa bastante semelhante à sala de shows. Um "líder" que canta com inflexão pop e tom afetado, enquanto inventa e improvisa ritmo e melodia, não pergunta a uma congregação: "Cante comigo". Ele diz: "Aborde o canto congregacional como se fosse um show".

2. Amplificação suprime o canto congregacional.

Um líder solo que canta com microfone envia uma mensagem à congregação de que seu papel é semelhante ao de uma platéia em um show de rock: "Cante se você quiser, mas isso realmente não importa". Como resultado, a natureza corporativa do culto reunido e a voz da congregação se torna completamente dispensável para tudo. Embora alguns possam estar cantando, às vezes até em voz alta, a função da congregação é mais passiva do que ativa.

3. O órgão é um líder melhor.

Muitas pessoas, especialmente os líderes de música, dirão que essa é simplesmente a minha opinião. Não creio. E embora muitos também apontem alguns exemplos históricos de órgãos que são proibidos em algumas igrejas, eles geralmente não reconhecem que o órgão de tubos realmente se desenvolveu dentro da igreja a serviço das necessidades litúrgicas da igreja.

O instrumento em si é inigualável em sua capacidade de permitir um bom canto congregacional. O órgão pode sustentar arremessos sem decaimento, conduzindo as frases, atraindo a música para fora da congregação. A articulação precisa no console pontua a frase para a congregação, respirando com eles e acompanhando a frase a seguir. Um órgão com boa voz e tamanho para a sala enfatizará as partes inferiores e superiores do tom, deixando espaço no meio para que as vozes humanas se encaixem. E, embora possa fornecer uma estrutura musical de apoio para encorajar os cantores, não pode cantar o texto para eles.

4. Cantores com microfones tendem a falar.

A pior teologia acontece na adoração quando saímos do script e, juntamente com o fato de que a maioria (mas certamente não todos) dos chamados "líderes de adoração" não são bem treinados teologicamente, mesmo as declarações planejadas tendem a ficar aquém da boa teologia ou significativa conexão com a liturgia. Mesmo se eles são treinados teologicamente, os tempos corporativos de oração cantada tradicionalmente usam linguagem refinada e elevada, temperada por séculos, impregnada nas Escrituras e na teologia. Não é hora de jogar um monte de balbúrdia extemporânea, que pode ser nada menos que desastrosa.

5. O líder de música frequentemente se torna uma vitrine para ego e personalidade.

Estamos vivendo os dias da celebridade cristã. Como eu disse antes, testemunhamos o advento da "estrela de adoração", especialmente nas últimas duas décadas. Conceder um microfone a um músico está oferecendo a eles muita força e prestígio. Alguns transformam o culto corporativo em uma rotina de comédia com humor e carisma. Alguns aproveitam a oportunidade para mostrar seus próprios estilos pop afetados e construir sua celebridade no molde de tantos outros. Alguns exploraram a vulnerabilidade de uma congregação emocionalmente comprometida. Basta olhar para as vendas de discos da chamada "indústria de adoração". Mesmo aqueles que se esquivam do título de "superstar", bem, eles podem realmente negar que é isso que eles são?

A chamada "indústria do culto" exacerbou esse fenômeno. Como nossa cultura está muito acostumada a ouvir música para entretenimento, criamos nossas próprias celebridades. Não se engane sobre isso. A igreja também faz isso. Começamos a associar o culto a uma pessoa e a uma apresentação, em vez da oração corporativa por meio da Palavra e do Sacramento.

6. A música tradicional da igreja praticamente canta a si mesma.

Temos uma rica história de salmos, hinos, canções e canções, criadas com belas melodias eminentemente cantáveis, com uma rica estrutura harmônica, um grupo ao qual cada geração acrescentou o melhor. Então decidimos que não precisávamos mais dessas coisas. Então substituímos nossos hinos por novas músicas, escritas para gravações comerciais solo.

E foi aí que decidimos que precisávamos de um líder de música, com uma banda cover de alto nível.

Mas nós não. Nós nunca fizemos. Nós apenas precisamos cantar.

Vamos continuar

Estou pronto para superar líderes de música no culto. Estou pronto para sair do ataque musical amplificado. A igreja deveria estar também, e é hora de se auto-corrigir.

Precisamos ensinar nossas congregações a cantar, e não apenas ter alguém com microfone cantando.



Reformando o Culto: Reverência, a Tradição Reformada e a Crise do Culto Protestante - D. G. Hart



Dentro dos círculos evangélicos, tanto clero quanto laicato estão dando grande atenção ao culto. As congregações cantam “cânticos de louvor” (completos com projetores e guitarras) ou corais treinados (completos com becas e órgão de tubos) deveriam cantar as grandes obras da música sacra? Os cultos deveriam ser atualizados para serem mais amigáveis, mais acessíveis aos “sem igreja” ou deveriam continuar com seus padrões tradicionais, mesmo que causassem estranheza a visitantes? O pastor deveria ser o único líder do culto ou o laicato também poderia conduzir o culto, seja orando ou cantando? Numa cultura que acha muito falatório entediante, o sermão de 35 minutos deveria continuar a ser um elemento central do culto ou as congregações deveriam se abrir para formas menos verbais de expressão, como dança litúrgica e teatro? Essas são as perguntas que atormentam não apenas evangélicos, mas também congregações presbiterianas e reformadas na América do Norte e, cada vez mais, no resto mundo.
Frustrados pelo que compreendem como superficialidade e vazio de muito do culto contemporâneo, alguns conservadores abandonaram comunhões evangélicas e reformadas rumo à Igreja Episcopal, mas também à Igreja Ortodoxa Oriental e a Igreja Católica Romana. Essas pessoas estão cheias desse culto que, segundo um crítico, é “uma coisa personalista, subjetiva e improvisada”. Ninguém consegue concordar com o que é o culto. “É bater num tamborim, participar em evangelismo, oração, cantoria, falar em línguas – é o quê?”
O que é curioso sobre o descontentamento contemporâneo com o culto é que a trajetória tomada por aqueles que estão partindo rumo a Cantuária, Roma e Constantinopla nunca passa por Genebra. No entanto, o culto reformado jamais foi hospitaleiro ao subjetivismo, individualismo e banalidade das quais esses peregrinos estão fugindo. Evelyn Underhill, em seu livro, Adoração (1936), descreveu o culto de João Calvino como um “puritanismo austero” que “em última instância, concentrava-se no Deus Eterno em sua majestade não vista” e que “tem um esplendor e valor espiritual que lhe é próprio”. O culto reformado, continuou Underhill, era “um poderoso corretivo contra a piedade humanística, comunicando a verdade permanente da realidade única de Deus e de seu total zelo, além da pobreza, dependência e obrigação do homem”. Isso parece que seria um bem-vindo corretivo ao espírito antropocêntrico e terapêutico que caracteriza tantos cultos de hoje.
Então, por que os críticos do culto evangelical não estão tirando o pó de suas cópias das Ordenanças Eclesiásticas, de Calvino, e do Saltério Genebrino? A descrição do culto de Calvino feita por Underhill fornece pistas para uma resposta.
Não eram permitidos em suas igrejas nenhum órgão, nem coral; nenhuma cor, nem ornamento, senão uma mesa e os Dez Mandamentos na parede. Nenhum ato, nem gestos cerimoniais eram permitidos. Nenhum hino era cantado, senão aqueles derivados de alguma fonte bíblica.
As pessoas que buscam uma liturgia elaborada, experiência elevada e muito drama não são muito atraídas pelo culto reformado. Os críticos argumentam que a tradição reformada despiu o culto, negando elementos humanos do culto, o que deixou os presbiterianos sem liturgia ou ritual, portanto, sem espaço para a presença sacramental no culto.
No entanto, essa crítica ao culto reformado – que provavelmente encontraria apoio entre muitos calvinistas – não entende o que é liturgia e sacramento. Afinal de contas, toda igreja tem uma liturgia, independentemente de os membros se conceberem litúrgicos ou não. A liturgia é apenas a forma e ordem do culto. Tanto a mais alta missa anglo-católica quanto o mais baixo culto “de louvor e adoração” evangelical são litúrgicos no sentido mais estrito da palavra. Obviamente, eles diferem dramaticamente em liturgia, mas ambos incorporam uma forma e ordem de culto. Até mesmo Underhill, que criticava Calvino, reconheceu o caráter litúrgico da adoração reformada: “o interior sombrio de uma verdadeira igreja calvinista é, em si mesmo, sacramental: um testemunho da inadequação humana diante do Divino”.
De uma perspectiva diferente, então, o culto reformado pode ser do tipo mais elevado ou do tipo mais comum de culto, pois Calvino esmerou-se por fazer todo aspecto do culto – do desenho do interior da igreja ao modo de cantar – conformar-se ao caráter e à graça do Deus que se revelou em Cristo e nas Escrituras. De fato, a teologia de Calvino e sua compreensão acerca do culto parecem se encaixar e se reforçar tão bem que é de se admirar que as pessoas de tradição reformada possam querer tentar manter a teologia calvinista consistentemente sem entusiasticamente abraçar os elementos e o caráter do culto reformado como formulados e praticados nos séculos XVI e XVII.
Calvino e o Culto
    Invocação
Princípios do Culto Reformado
O Impulso Revisionista
Uma Questão de Reverência

Um axioma da teologia de João Calvino era a importância e centralidade do culto de adoração para uma genuína fé e prática cristã. De fato, Calvino punha o culto antes da salvação em sua lista das duas mais importantes facetas da religião bíblica. Ele escreveu que a religião cristã preserva sua verdade por meio de “um conhecimento, primeiramente, do modo como Deus é devidamente cultuado; e, segundamente, da fonte de onde a salvação é obtida”.[1]
Calvino também observou que a primeira tábua da lei – os quatro primeiros mandamentos – todos se relacionavam diretamente com o culto, tornando-o, assim, “o primeiro fundamento da justiça”. 
A proeminência do culto levou Calvino a articular o seu princípio regulador, um dos marcos da tradição reformada. O princípio regulador ensina que o culto público é governado pela revelação de Deus em sua Santa Palavra: quaisquer elementos que componham o culto público devem ser diretamente ordenados por Deus na Escritura. O fato de uma congregação sempre ter cultuado de um modo particular ou de uma determinada prática advir de piedade sincera são justificativas insuficientes para esse culto. Segundo Calvino, Deus não apenas “considera infrutíferos, mas também totalmente abomina” o que quer que não se conforme à sua vontade revelada. “As palavras de Deus são claras e distintas”, escreveu Calvino, “’Obedecer é melhor do que o sacrificar’. ‘E em vão me adoram, ensinando doutrinas que são preceitos dos homens.’ (1 Sm 15:22, Mt 15:9)”.[2]
O desejo de obedecer a Deus não apenas moldou a concepção de Calvino do princípio regular, mas igualmente importante era sua compreensão da depravação humana. O efeito principal da primeira transgressão de Adão foi transformar todas as pessoas em idólatras. Calvino cria que todos os indivíduos possuíam uma semente de religião ou um sentido de Deus em suas almas, mas, após a queda, esse sentido religioso não levava mais ao verdadeiro Deus, antes, forçava homens e mulheres a criarem deuses à sua imagem, deuses que se conformavam a seu egoísmo e vaidade. A tentação da idolatria exigia que os cristãos estivessem sempre vigilantes em regrar seu culto pelas ordens diretas de Deus na Escritura. Essa tentação deixava Calvino especialmente suspeitoso de práticas no culto que eram tidas como agradáveis ou atraentes aos membros da congregação. Sobre as práticas, ele disse que “tanto mais suspeitas são para os fiéis quanto mais deleitam o intelecto humano”.[3]
A teologia do culto de Calvino exigiu reformas das práticas católicas romanas que ele encontrou em Genebra, mas a necessidade de reforma nem significou o abandono da liturgia, muito menos exigiu a eliminação de todos os elementos da liturgia católica. Os reformadores purificaram as práticas de seus dias, transformaram o conteúdo teológico e espiritual do culto cristão, mas eles não criaram uma nova ordem de culto do nada. Ao invés disso, eles alteraram os elementos de culto para se conformarem à teologia da Reforma. A liturgia em Calvino, por exemplo, demonstra continuidade com o passado ao mesmo tempo em que reflete mudanças derivadas de novas percepções na revelação de Deus. A ordem de culto era basicamente a seguinte:
    Confissão de Pecados
    Oração por Perdão
    Cântico de um Salmo
    Oração por Iluminação
    Lições da Escritura
    Sermão
    Coleta das Ofertas
    Orações de Intercessão
    Credo Apostólico (cantado enquanto os elementos da Ceia do Senhor são preparados)
    Palavras da Instituição
    Instrução e Exortação
    Comunhão (enquanto um salmo era cantado ou uma escritura era lida)
    Oração de Ação de Graças
    Bênção
Embora Calvino tenha seguido um padrão regular em seus cultos, ele não acreditava ser possível prescrever todas as questões concernentes à adoração. Ele reconhecia que havia questões incidentais não determinadas pela Escritura. Nesses casos, as igrejas tinham a Liberdade, sob as diretrizes gerais da Bíblia, de implementar práticas que honrariam a Deus e edificariam seu povo. Apesar de o princípio regulador ensinar que uma prática específica devesse ser comandada pela Palavra de Deus, ele também garante liberdade em áreas onde a Escritura não é explícita.
Embora Calvino e outros reformadores tenham hesitado em prescrever uma liturgia específica para todas as igrejas, em toda a Europa Ocidental, houve notável concordância entre as igrejas presbiterianas e reformadas sobre a natureza do culto do século XVI até boa parte do século XVIII. De fato, as instruções para o culto trabalhadas pelas igrejas reformadas, de Calvino à Assembleia de Westminster, sugerem cinco princípios que deveriam governar o culto na tradição reformada.
O primeiro é a centralidade da Palavra de Deus. A Palavra de Deus não apenas direciona a forma ou modo do culto, mas também abrange o conteúdo do culto. Ela é lida, cantada, vista (na Ceia do Senhor) e pregada. A centralidade da Palavra de Deus está especialmente evidente na ênfase reformada na pregação. Em contraste ao culto Católico Romano, onde o foco é a missa e o altar é a peça central da arquitetura eclesiástica, os reformadores tornaram a pregação a parte central do culto e puseram o púlpito no centro do santuário.
Um segundo princípio da teologia reformada, que é bastante relacionado ao primeiro, é que o culto é teocêntrico. O culto é centrado em Deus e seu objetivo deve ser a glória de Deus. Ele é a mais alta forma de comunhão entre Deus e seu povo, devendo ser feito em espírito e verdade. Não há nada que Deus odeie mais do que o falso culto. O culto é absolutamente necessário à fé e prática cristãs porque Deus o ordena e Ele nos constituiu de tal modo que o culto é essencial para o fortalecimento de nossa vida espiritual.
Isso significa que o culto não é feito para evangelismo. O fato de os cultos no Dia do Senhor terem se tornado “sensíveis aos que buscam” mostram uma perversão da natureza do culto. O culto público é para o povo de Deus, pois apenas o seu povo é que pode adorá-lo em espírito e em verdade. Os descrentes devem ser bem-vindos e encorajados a ouvir a pregação da palavra, o que o Breve Catecismo de Westminster descreve como sendo meios “especialmente” eficazes de “convencer e converter pecadores”.[4] Não obstante, o modo pelo qual Deus traz pessoas a si não deveria nos fazer confundir a natureza do culto. Se nós incorporarmos evangelismo ao culto, isso é apenas um sinal de preguiça, não uma indicação de que peritos em crescimento de igrejas estão certos. Cultos evangelísticos têm seu lugar e a Igreja precisa levar a sério a Grande Comissão, mas o discipulado também é parte das instruções de Cristo a seus discípulos e o culto é um dos principais meios pelos quais “as bênçãos da redenção de Cristo”[5] nos são aplicadas.
O caráter dialógico do encontro de Deus com seu povo é o terceiro princípio que governa o culto reformado. O culto público ou corporativo é o encontro de Deus com seu povo. Os crentes vêm por convite dele e são recebidos à presença dele. Deus fala por meio da invocação, da leitura da Palavra, do sermão e da bênção. Os adoradores respondem em canto, oração e confissão de fé.
Esse caráter dialógico do culto levanta a questão bastante debatida de sentimentos ou emoções no culto. Para muitos que estão fora e para muitos [autoproclamados] porta-vozes de jovens nas igrejas reformadas (adolescentes frequentemente demonstram compreensão de culto melhor que seus pais), o culto parece tedioso e repressivo. Muitos querem que a igreja seja mais aberta, expressiva e emotiva. Ainda assim, o que muitos desses críticos parecem não entender é que que Deus nos disse em sua palavra como nós devemos reagir a Ele. No culto, nós reagimos a Deus através de canto, oração e confissão de fé. Para alguns, no entanto, esse não parece ser o veículo mais apropriado para reagir. Eles prefeririam reagir a Deus do mesmo modo como reagiriam ou participariam em um show de rock, um jogo no estádio[6] ou uma apresentação de uma orquestra.
Reparar na afinidade entre o entretenimento moderno e o culto contemporâneo é apontar com precisão uma das fontes de equívoco em muito do pensamento atual sobre culto, pois há uma vasta diferença entre reagir a entretenimento e entre ouvir e submeter-se à palavra de Deus. No entanto, isso passa despercebido em muitos membros de comitês de culto em muitas congregações presbiterianas e reformadas.
Muitos indivíduos chegam ao culto esperando expressar emoções e afeições pessoais como parte de sua reação a Deus. O que eles erram em reconhecer é que o culto na igreja é corporativo, portanto, deveria ser apropriado ao que pessoas podem fazer como um corpo ou grupo. O Diretório de Culto de Westminster, que foi escritos pelos teólogos de Westminster, é justamente isso: um guia para o culto público ou corporativo. Em nossas casas de culto, nós adoramos como povo, não como indivíduos.
Uma analogia que ajuda a explicar isso é a relação entre um pai e seus filhos. Um filho pode se expressar de um modo para seu pai quando estão sozinhos juntos. Há uma chance de ser mais íntimo e expressivo. Contudo, quando o mesmo filho está na presença do pai juntamente com seus dois irmãos e duas irmãs, ele normalmente não vai demonstrar o mesmo nível de intimidade ou afeição de quando ele e o pai estão sós. Seria rude, por exemplo, que esse filho esperasse sentar no colo do pai se essa demonstração de afeição sugerisse favoritismo ou se tornasse uma barreira à comunicação e comunhão dos outros filhos com o pai. No entanto, é virtualmente isso que acontece quando alguns membros da congregação querem que seus sentimentos pessoais sejam incorporados ao culto.
O quarto princípio do culto reformado é simplicidade. A plena revelação de Deus em Cristo na Nova Aliança significa que os cristãos não são mais dependentes dos elementos infantis e carnais da Antiga Aliança. Por causa da obra de Cristo, os crentes já podem se sentar com Ele, em glória, quando se reúnem para cultuar. Esse aspecto da obra de Cristo grandemente reduz a necessidade para apoios visíveis ou materiais no culto. Simplicidade no culto, portanto, está intimamente relacionada a espiritualidade. Na Nova Aliança, segundo a teologia reformada, Deus está mais plenamente presente com seu povo do que na Antiga Aliança, mas essa presença é espiritual, não física. A ordem de Cristo para que seus seguidores o adorem em espírito e verdade é consoante com o novo arranjo entre Deus e seu povo.
A simplicidade também sugere rotina. Os cultos evangélicos contemporâneos têm sido tão repaginados e ensaiados num esforço para manipular a congregação a uma experiência de culto que parece que os diferentes elementos de culto foram desenhados para despertar sentimentos ou emoções que seriam, de algum modo, mais íntimas e mais expressivas da comunhão com Deus. Em outras palavras, muitos cultos públicos contemporâneos chamam atenção para o culto em si e para seus dirigentes. Muitos desses cultos são concebidos por pessoas que se consideram devotas e acreditam que, se a congregação apenas seguir seu exemplo, ela também terá uma íntima experiência com Deus (eles são até chamados de “líderes de louvor”).
Em contraste, o culto reformado mantém que o culto não deveria ser original ou criativo. Ao invés disso, ele deveria ser rotineiro, ordinário e habitual. C.S. Lewis não era nenhum teólogo reformado, mas ainda assim enunciou um ponto que é apoiado pela tradição reformada quando disse que um culto público “funciona melhor quando, através de longa familiaridade, nós não temos que pensar sobre ele”. “O perfeito culto na igreja”, ele acrescentou, “seria aquele a que nós mal notássemos, aquele onde toda a nossa atenção estivesse em Deus.”[7]
Tudo isso é impedido pela novidade. A novidade fixa nossa atenção no próprio culto; e pensar acerca do culto é diferente de cultuar. […] “É louca a idolatria que engradece mais o culto do que o deus”. Mas ainda pode acontecer algo pior. A novidade pode fazer com que nossa atenção não se centre no culto, mas no celebrante. […] Verdadeiramente, pode-se desculparo homem que disse: “Eu gostaria que eles se lembrassem de que a tarefa encomendada a Pedro foi ‘apascenta minhas ovelhas’, não ‘faze experimentos em meus ratos’, nem ‘ensina novos truques a meus cães adestrados’”.[8]
O quinto e último – e, talvez, o mais importante – princípio do culto reformado é a reverência. Segundo Calvino, a “religião pura e real” se manifestava através da “fé aliada a sério temor de Deus, de modo que o temor em si contém reverência espontânea”. O culto deveria ser digno e reverente, mas ele não atinge essas qualidades mediante cerimônias muito elaboradas ou liturgias complexas. De fato, Calvino acreditava que onde “grande é a ostentação em cerimônias, rara, porém, é a sinceridade de coração”.[9]
Diferentemente do que alguns críticos do culto reformado têm acusado, isso não significa que o culto não tenha lugar para alegria ou emoção. A alegria deve ser uma parte do culto, juntamente com uma gama completa de emoções – i.e., tristeza, raiva, desejo, esperança e medo – mas a necessidade de reverência e decoro dita que qualquer expressão de emoção durante o culto deveria ser temperada por moderação e autocontrole. Para garantir que todo aspecto do culto seja feito decentemente e em boa ordem, a tradição reformada insiste que todo culto seja supervisionado pelos presbíteros, que têm responsabilidade pelo culto público, e que o ministro, que fala por Deus e pelo povo de Deus, lidere e dirija o culto.
Um modo útil de entender a reverência pode ser o de pensar no ethos de um culto fúnebre para um cristão professo (apesar de os teólogos de Westminster não aprovarem cultos fúnebres). Ali, nós contemplamos a morte de um amado, estamos cheios de tristeza e somos lembrados de nossas próprias fraquezas. Ainda assim, quando o falecido é um crente, o culto também é uma ocasião para alegria porque cremos que Deus chamou um de seus filhos para estar com Ele que aquele crente foi “aperfeiçoado em santidade” e entrou “imediatamente na glória”.[10]
Por que um culto público deveria ser diferente? Em nossos cultos, a morte de Nosso Senhor é central. Claro, nós não paramos na morte de Cristo. Depois disso, nós nos regozijamos em sua ressurreição, sem a qual, diz o apóstolo, nós não teríamos esperança[11].  Ainda assim, a alegria que experimentamos em contemplar e adorar o nosso Salvador ressurreto é uma emoção que vem sempre tingida de gravidade e humildade. Não é a alegria de uma festa celebrando o campeonato nacional de um time esportivo; é uma alegria que não apenas reconhece o sofrimento e morte de Jesus Cristo, mas também reconhece nossa própria cumplicidade, devido ao nosso pecado, em dor e morte cheias de ignomínia.
Os padrões e as ideias sobre culto permaneceram relativamente constantes na prática reformada e presbiteriana, mas, nos últimos 20 anos, a teologia e prática do culto reformado têm sido levado aos limites.[12] Várias denominações tentaram revisar seus diretórios de culto, enquanto incontáveis congregações estabeleceram comissões de liturgia cuja única função para ser modernizar o culto. Embora em alguns casos as mudanças propostas tenham sido guiadas por considerações reformadas e biblicamente sãs, eles também expõem um descontentamento genuíno com o culto dentro do arraial reformado. Esse descontentamento provavelmente foi mais bem resumido num relatório recente de uma denominação presbiteriana conservadora:
Há uma insatisfação geral ou, pelo menos, uma generalizada falta de uso na igreja do atual Diretório. Há partes do atual Diretório que estão tão datadas (e.g., “o imponente ritmo do coral”) que tem de haver uma revisão completa. No entanto, não há consenso de aonde a igreja quer ir em matéria de culto. A situação atual na igreja em relação do culto é diversa, variando de uma quase anarquia litúrgica a outros que sentem que cantar hinos não inspirados constituem uma violação do princípio regulador.
Como se chegou ao atual estado? Alguns talvez apontem a novas perspectivas bíblicas que os velhos hábitos de culto e sua teologia subjacente estavam muito mais ligados a uma forma de expressão cultural específica do que ao ensinamento da Palavra de Deus. Outros citam o crescimento limitado das igrejas que não mudam seu culto e a falta de capacidade do culto tradicional de atrair a juventude cristã como fatos que exijam que o culto seja tornado relevante e livre dos padrões mais antigos – e, supostamente, humanos – de culto. Outros enxergam esse descontentamento em matéria de culto como claras indicações de um abandono da teologia de culto reformada.
Muitas das mudanças de pensamento sobre o culto nos últimos 25 anos se originam em transformações significantes da cultura americana. Os velhos modos de cultuar não parecem mais plausíveis; parecem inefetivos, se não estranhos. O ministério efetivo da Igreja, alguns diriam, exige que ela se mantenha em dia em contextualizar o evangelho a fim de torná-lo compreensível para a cultura contemporânea. Se isso significar abandonar o modo de culto que data dos anos 1930, que seja assim. Contanto que o conteúdo do culto seja são, a forma realmente não importa. Assim, as mudanças no culto são apenas alterações de forma: abandona-se o estilo dos anos 1930 em favor da cultura dos anos 1990.
É irônico que crentes consigam ser tão acríticos das expressões culturais contemporâneas, levando-os a pensar que o estilo dos anos 1990 seja adequado ao culto, quando os mesmos crentes ficam tão alarmados com os males dessa mesma cultura. Também é notável quantos calvinistas, que insistem que tudo seja feito para a glória de Deus tão frequentemente julguem um culto conforme ele seja agradável a homens, mulheres e, especialmente, adolescentes.
A maioria dos cristãos concordaria que o povo de Deus está em tempos difíceis. A Igreja enfrenta políticas injustas da parte do governo, o relativismo moral do sistema de ensino e a decadência da mídia. Ainda assim, poucos parecem reconhecer os perigos mais sutis da cultura americana. Uma das mais insidiosas e sutis influências na igreja vem da mídia e da indústria do entretenimento. Os ministros frequentemente pregam sobre os perigos escancarados de Hollywood, alertando contra sexo, violência e desrespeito pela religião em muitos filmes, programas de TV e músicas populares. Uma influência muito mais perigosa, contudo, é o modo como a cultura popular alterou as atitudes em relação ao culto.
A cultura popular tem promovido uma mudança significativa nas percepções sobre o culto público. Cada vez mais, os cristãos exibem vontade de considerar seu tempo juntos coletivamente do mesmo modo como pensam em formas públicas de entretenimento. O culto vira uma apresentação para uma congregação. Não há mais a convicção de que a audiência do culto não é a congregação, mas o próprio Deus.
Ainda mais alarmante é o modo como a cultura popular gestou um ethos de informalidade, de quebra de distinções entre o que é solene e o que é desrespeitoso. O culto mais antigo parece defasado – a frase “o imponente ritmo do coral” não faz sentido – porque nossa cultura despreza ou não tem uso para aquilo que é digno e majestoso. O que torna expressões contemporâneas ou populares de culto questionáveis a partir de uma perspectiva reformada não é que elas não sejam de alta cultura – embora as orações, adoração e música dos cultos de hoje sejam frequentemente triviais. Crentes podem adorar a Deus gostando ou não de uma sonata de Mozart ou de uma escultura de Michelangelo. Ao invés disso, o problema de muito do culto contemporâneo é que ele não reconhece a percepção do calvinismo, a saber, que as pessoas (cristãos, inclusive) são constantemente tentadas a moldar Deus às suas próprias imagens. O culto reflete a concepção de Deus que um povo tem. Muitas das inovações no culto moderno comunicam uma imagem errada de Deus. O culto é uma declaração de convicção teológica sobre quem Deus é e sobre quem nós somos enquanto seu povo, o povo da aliança.
A teologia reformada sempre manteve que, quando crentes se reúnem no Dia do Senhor, suas práticas devem refletir humildade e reverência. Os cristãos vêm perante o Santo e Transcendente, que é o justo Juiz do universo, a quem homens e mulheres ofendem diariamente e que maravilhosamente providenciou um caminho de salvação mediante seu Filho, Jesus Cristo. O culto deveria ser um lembrete do golfo entre Deus e pecadores, do que Deus fez para superar esse golfo para que os crentes não caíssem num falso entendimento de Deus. No culto, os cristãos professam e honram o caráter do Deus em cuja presença eles entram e que os tirou de um estado de pecado e miséria. O culto, portanto, não é algo a ser feito de modo leve ou sem séria consideração.
As formas e estilo da cultura contemporânea não conseguem ter a dignidade e respeito que deveriam caracterizar a postura interna e externa de cristãos quando eles se aproximam do trono de Deus. Embora haja um apelo terapêutico em pensar no culto como se se entrasse num bar aonde Deus serve como o garçom amigo, sempre pronto a ouvir o que temos a dizer e a limpar nossas lágrimas e nossas mesas, o Deus revelado na Escritura é um rei que se senta altivo em seu trono de glória, atento a palavras, pensamentos e emoções de seus súditos no que eles se reúnem perante a si.
Fique-se claro que esse rei também é nosso Pai. Contudo, à luz do que o 5º mandamento e o Apóstolo Paulo dizem acerca do respeito e temor que as crianças devem ter por seus pais, a imagem de Deus como nosso pai não permite indiferença ou frivolidade no culto. O culto recomendado e praticado por Calvino, Knox e pelos teólogos de Westminster refletem uma combinação reverente de alegria e temor. A maneira mais antiga de culto sempre foi restringida pelo senso de que qualquer exibição de irreverência ou desrespeito ofenderia Deus.
Ao invés de seguir os impulsos liberacionistas e irreverentes da cultura Americana, os calvinistas precisam, se quiserem ter algo a dizer nas discussões contemporâneas sobre culto, recuperar em sua teologia e prática de culto aquilo que o Salmo 2:11 fala quando diz que o povo de Deus deveria “alegrar-se com tremor”. Não há versículos melhores para caracterizar o culto reformado do que Hebreus 12:28-29. “Por isso, recebendo nós um reino inabalável, retenhamos a graça, pela qual sirvamos a Deus de modo agradável, com reverência e santo temor; porque o nosso Deus é fogo consumidor.”
Essa concepção tem caracterizado o culto presbiteriano e reformado desde a Reforma. É de se perguntar como que as igrejas reformadas conseguem reter sua herança teológica de modo significativo ao passo que abandonam a essência do culto reformado, tendo especialmente em vista que o culto semanal fornece o fundamento e reforço para a própria teologia que os crentes reformados confessam. O abandono do culto reformado pode pelo menos explicar por que aqueles que buscam um culto com dignidade e reverência partem frequentemente para comunhões não reformadas. Se as igrejas reformadas forem ser fiéis à sua teologia e forem oferecer às almas cansadas algum descanso da superficialidade e banalidade do culto evangélico contemporâneo, elas precisam recuperar a liturgia e a teologia de culto da tradição reformada: um culto que que leva a sério a noção de que Deus é, de fato, “um fogo consumidor”.
[1] CALVINO, João. A Necessidade de Reformar a Igreja. In: ORGANIZADOR. As Obras de João Calvino. Recife: Editora CLIRE, 2018. Vol. 1, p. 155.
[2] Idem
[3] Institutas IV.X.XI
[4] Breve Catecismo de Westminster, Pergunta 89.
[5] Idem, Pergunta 88
[6] No original, “um jogo de beisebol”.
[7] LEWIS, C.S. Oração: Cartas a Malcolm.
[8] Idem
[9] Institutas I.II.II
[10] Breve Catecismo de Westminster, Pergunta 37
[11] 1 Coríntios 15:19
[12] Mantenha em mente que o Dr. Hart escreveu este artigo em 1995.

Tradutor: Natan Cerqueira

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